Tendinite do tendão de Aquiles é a dor e o espessamento do maior tendão do corpo, aquele que liga a panturrilha ao osso do calcanhar e que permite ficar na ponta dos pés, correr e subir escadas. O nome popular fala em inflamação, mas na maioria dos casos que duram mais de algumas semanas o que existe é degeneração das fibras por sobrecarga repetida, e por isso o termo médico atual é tendinopatia do Aquiles. Entender essa diferença muda o tratamento: o que recupera um tendão degenerado é carga bem dosada, não repouso prolongado.

O que acontece no tendão

O tendão de Aquiles suporta várias vezes o peso do corpo a cada passada de corrida. Quando a carga sobe mais rápido do que o tendão consegue se adaptar, as fibras de colágeno se desorganizam, o tendão engrossa, surgem pequenos vasos e nervos novos dentro dele e a dor aparece. Na fase inicial, de dias a poucas semanas, há de fato inflamação da capa que envolve o tendão (a paratendinite). Nos quadros crônicos, a inflamação é mínima e o problema é estrutural.

A dor atrás do calcanhar é uma das queixas que mais confundem, porque várias estruturas vivem ali. A página sobre dor no calcanhar mostra como separar a dor posterior, do Aquiles, da dor plantar, da fáscia.

Tendinopatia insercional e não insercional

O local da dor define dois tipos, e eles não são tratados do mesmo jeito.

Não insercional (porção média)

A dor e o espessamento ficam no corpo do tendão, de 2 a 6 centímetros acima do calcanhar. É possível sentir um "nó" que se move quando o pé sobe e desce. É o tipo mais comum em corredores de 30 a 50 anos e o que melhor responde aos exercícios excêntricos clássicos.

Insercional

A dor fica no ponto em que o tendão se prende ao calcâneo, na parte de trás do calcanhar. Costuma vir acompanhada de um esporão posterior (calcificação dentro do tendão), de bursite entre o tendão e o osso e, às vezes, de uma proeminência óssea chamada deformidade de Haglund, que faz o contraforte do sapato machucar. Esse esporão posterior é diferente do esporão no calcanhar plantar, que fica na sola e se relaciona à fáscia. A tendinopatia insercional piora com exercícios que levam o calcanhar abaixo do nível do degrau, e por isso o programa precisa ser adaptado.

Sintomas

  • Dor e rigidez atrás do calcanhar ou na perna, piores nos primeiros passos da manhã e ao iniciar atividade, que melhoram com o aquecimento e voltam depois.
  • Espessamento palpável do tendão, com dor ao apertar.
  • Dor ao subir escadas, correr, saltar e ficar na ponta de um pé só.
  • No tipo insercional, dor ao usar sapato fechado, com contraforte apertando a parte de trás do calcanhar.
  • Estalo audível seguido de fraqueza súbita para empurrar o pé indica ruptura e é urgência.

Causas e fatores de risco

O fator central é o aumento rápido de carga: começar a correr, subir volume ou intensidade, incluir subidas e tiros, ou trocar de superfície. Pesam também a panturrilha encurtada e fraca, o pé cavo, que amortece mal e aumenta a tração, a pronação excessiva, o calçado sem drop, o sobrepeso, a idade acima dos 40 anos, o diabetes, o colesterol alto e o uso de alguns antibióticos da classe das quinolonas e de corticoides sistêmicos. Quem tem o pé cavo tende a desenvolver a forma insercional com mais frequência.

Como o diagnóstico é feito

O exame clínico identifica o local da dor, o espessamento e a força do tendão, e um teste simples de apertar a panturrilha afasta a ruptura completa. A ultrassonografia mostra o espessamento, as áreas degeneradas e os vasos novos; é também o exame que guia procedimentos. A radiografia é útil na forma insercional, para ver o esporão posterior e a deformidade de Haglund. A ressonância fica para dúvida diagnóstica, suspeita de ruptura parcial e planejamento cirúrgico.

Tratamento da tendinite do tendão de Aquiles

Controle de carga, não repouso total

Repouso absoluto enfraquece ainda mais o tendão. A regra é manter atividade em um nível que produza dor leve, tolerável, que não piore na manhã seguinte. Corrida é substituída por bicicleta ou natação nas fases mais dolorosas e reintroduzida de forma gradual.

Exercícios excêntricos e de carga pesada lenta

São a base do tratamento. No protocolo excêntrico clássico, a pessoa sobe na ponta dos pés com as duas pernas e desce lentamente com uma só, em um degrau, deixando o calcanhar ir abaixo do nível do degrau; três séries de quinze, com o joelho esticado e dobrado, duas vezes ao dia, por doze semanas. Na forma insercional, a descida vai só até o nível do chão, sem ultrapassá-lo. Programas de carga pesada e lenta, com pesos e menos repetições, três vezes por semana, têm resultado equivalente e são mais fáceis de manter. A fisioterapia orienta a progressão e corrige a técnica.

Calçado e calcanheira

Um calçado com drop de 8 a 12 milímetros ou uma calcanheira de 1 centímetro nos dois pés reduz a tração sobre o tendão. No tipo insercional, contraforte macio ou sapato aberto atrás evita o atrito. Os critérios para escolher o par são os mesmos que descrevo no artigo sobre calçado para esporão de calcanhar. Palmilha é indicada quando há pé cavo ou pronação acentuada.

Medicação e procedimentos

Anti-inflamatório por período curto ajuda na fase aguda e pouco na crônica. Infiltração de corticoide dentro do tendão é evitada pelo risco de ruptura; ao redor dele ou na bursa, guiada por ultrassom, pode ser considerada em casos selecionados, como explico na página sobre infiltração guiada por ultrassom. Ondas de choque têm boa evidência nos casos crônicos que não responderam aos exercícios. Imobilização com bota por duas a três semanas é reservada para dor incapacitante.

Quando operar

A cirurgia é indicada quando a dor persiste após seis meses de tratamento bem conduzido ou quando há ruptura. Na forma não insercional, remove-se o tecido degenerado e, se necessário, transfere-se um tendão vizinho para reforço. Na insercional, retira-se o esporão, a bursa e a proeminência de Haglund, e o tendão é reinserido com âncoras. A recuperação leva de três a seis meses, com fisioterapia desde as primeiras semanas.

CaracterísticaNão insercionalInsercional
Local da dor2 a 6 cm acima do calcanharNa parte de trás do calcanhar, no osso
Achado típicoNó espesso que se move com o péEsporão posterior, bursite, Haglund
Exercício excêntricoDescida completa abaixo do degrauDescida só até o nível do chão
CalçadoDrop de 8 a 12 mmDrop e contraforte macio ou aberto
Cirurgia, se necessáriaLimpeza do tendão, reforçoRetirada do esporão e reinserção

Não ignore o estalo. Dor súbita atrás da perna, como uma pedrada, com dificuldade imediata para ficar na ponta do pé, indica ruptura do tendão de Aquiles. É preciso atendimento no mesmo dia, porque o tratamento, com ou sem cirurgia, depende de começar cedo. Para a dor crônica que não melhora com o que leu aqui, a teleconsulta já permite revisar o programa de exercícios e definir exames.

Perguntas frequentes sobre tendinite do tendão de Aquiles

Tendinite e tendinopatia do Aquiles são a mesma coisa?

Na prática, sim. Tendinite é o nome popular e sugere inflamação. Tendinopatia é o termo mais correto, porque na maioria dos casos crônicos o problema é degeneração das fibras do tendão, com pouca inflamação. Isso explica por que anti-inflamatório sozinho não resolve.

Qual a diferença entre tendinopatia insercional e não insercional?

A não insercional atinge o meio do tendão, 2 a 6 centímetros acima do calcanhar, e responde bem a exercícios excêntricos completos. A insercional atinge o ponto onde o tendão se prende ao osso, costuma vir com esporão posterior e bursite, e exige exercícios adaptados, sem descer o calcanhar abaixo do degrau.

Posso continuar correndo com tendinite do Aquiles?

Depende da fase. Dor leve que não piora durante a corrida nem na manhã seguinte permite manter volume reduzido. Dor que aumenta ao longo do treino, que faz mancar ou que está pior no dia seguinte pede pausa da corrida e substituição por bicicleta ou natação.

Infiltração de corticoide é indicada no tendão de Aquiles?

Dentro do tendão, não, pelo risco de enfraquecer as fibras e favorecer ruptura. Ao redor do tendão ou na bursa, guiada por ultrassom, pode ser considerada em casos específicos, com critério e repouso relativo após o procedimento.

Quando a cirurgia é indicada?

Quando a dor persiste após seis meses de tratamento bem feito, com exercícios, calçado e controle de carga, ou quando há ruptura. O tipo de cirurgia depende de a lesão ser no meio do tendão ou na inserção.

Quanto tempo leva para melhorar?

Os programas de exercício excêntrico costumam mostrar melhora em doze semanas, mas a recuperação completa de um tendão degenerado pode levar de três a seis meses. Interromper na primeira melhora é a principal causa de recaída.