Canelite é o nome popular da síndrome do estresse tibial medial, uma dor na parte interna da canela provocada pela sobrecarga da tíbia, o osso da perna, e dos músculos que se prendem a ela. Aparece em quem aumentou o treino depressa demais, principalmente corredores, praticantes de salto e militares em instrução. A dor começa no fim do exercício, passa a surgir no início e, se nada muda, incomoda até ao caminhar.

O que é canelite e onde é a dor

A tíbia é coberta por uma membrana fina chamada periósteo, onde se fixam os músculos da parte de trás da perna, como o sóleo, o tibial posterior e o flexor longo dos dedos. A cada passada da corrida, esses músculos puxam o periósteo e o osso se dobra levemente. Quando a quantidade de impacto supera a capacidade do osso de se reparar entre um treino e outro, o periósteo inflama e o próprio osso começa a sofrer microlesões. Esse processo é a canelite.

A dor da canelite fica na borda interna da canela, no terço médio e inferior da perna, numa faixa de alguns centímetros de comprimento. Quase sempre dói dos dois lados, ainda que um deles incomode mais. Quando a dor está na frente da canela, sobre o músculo tibial anterior, ou é bem localizada num só ponto, outras causas precisam ser consideradas, e isso é feito na consulta. Corredores de outras cidades podem iniciar essa avaliação por teleconsulta ortopédica para dor na canela, com análise do histórico de treino e dos exames já realizados.

Sintomas de canelite

  • Dor difusa, em queimação ou peso, na parte interna da canela durante ou depois de correr.
  • Sensibilidade ao apertar a borda da tíbia com os dedos, numa área de cinco centímetros ou mais.
  • No começo, a dor some com o aquecimento e volta no fim do treino. Com o tempo, aparece desde os primeiros minutos.
  • Rigidez na canela ao levantar da cama no dia seguinte a um treino forte.
  • Inchaço discreto na região, em alguns casos.

Dor que continua em repouso, que acorda à noite ou que se concentra num ponto do tamanho de uma moeda não é típica de canelite e precisa de investigação para afastar fratura por estresse.

Causas da canelite e fatores de risco

A causa central é o desequilíbrio entre carga e recuperação. Os fatores que mais aparecem no consultório são:

  • Aumento rápido de volume ou intensidade: começar a correr do zero, subir a quilometragem semanal de uma vez, incluir treinos de tiro ou ladeira sem adaptação.
  • Superfície dura ou inclinada: asfalto, calçada e esteira com muito tempo na mesma inclinação.
  • Calçado gasto ou inadequado para o tipo de pisada.
  • Pronação excessiva: quem tem pé plano ou tornozelo que "cai para dentro" ao pisar sobrecarrega mais a face interna da tíbia. O pé cavo, de arco alto, absorve pior o impacto e também aumenta o risco.
  • Fraqueza da musculatura da canela e da panturrilha: músculos cansados deixam de amortecer e transferem o impacto direto ao osso.
  • Baixa densidade óssea, alimentação insuficiente para o gasto do treino e, em mulheres, irregularidade menstrual, que reduz a proteção do osso.
  • Encurtamento da panturrilha, que limita o movimento do tornozelo e muda a forma de absorver a passada.

Canelite ou fratura por estresse da tíbia?

As duas condições fazem parte do mesmo espectro de sobrecarga óssea, e a canelite não tratada pode evoluir para fratura por estresse. Alguns sinais ajudam a separar uma da outra, mas a confirmação é feita com exame físico e, se necessário, imagem.

CaracterísticaCaneliteFratura por estresse
Local da dorFaixa longa na borda interna da tíbiaUm só ponto, bem localizado
Dor em repousoRaraComum, inclusive à noite
Dor ao pular num pé sóModerada ou ausenteIntensa
RadiografiaNormalPode ser normal no início; linha ou calo ósseo depois
Afastamento da corridaParcial, com redução de cargaTotal, por seis a oito semanas ou mais

Como o diagnóstico é feito

O diagnóstico de canelite é clínico. A conversa sobre o histórico de treino, o calçado e a evolução da dor, somada à palpação da tíbia e à observação da pisada, costuma ser suficiente. A radiografia da perna é pedida para afastar fratura, embora possa estar normal nas primeiras semanas. Quando a dor é localizada ou não melhora com o tratamento, a ressonância magnética mostra o edema do osso e do periósteo e diferencia os graus de sobrecarga. Na mesma avaliação, a médica observa o alinhamento do pé e do joelho, porque isso define parte do tratamento. Quem tem o arco baixo pode se beneficiar da leitura sobre pé plano e pronação excessiva, e quem tem o arco alto encontra mais detalhes na página sobre pé cavo e absorção de impacto.

Como tratar canelite

Tratar canelite significa, antes de tudo, reduzir a carga sobre a tíbia até que o osso se recupere, e ao mesmo tempo corrigir o que levou à sobrecarga. Sem essa segunda parte, a dor volta assim que o treino é retomado.

Nas primeiras semanas

  • Repouso relativo: parar de correr ou reduzir muito o volume, mantendo o condicionamento com bicicleta, natação, elíptico ou corrida na água.
  • Gelo na canela por quinze a vinte minutos depois da atividade e ao fim do dia.
  • Alongamento da panturrilha e liberação da musculatura da canela.
  • Troca do tênis, se estiver gasto, por um modelo com amortecimento adequado ao peso e à pisada.

Remédio para canelite: o que ajuda e o que não resolve

É comum a pergunta sobre qual remédio tomar. Anti-inflamatórios, em comprimido ou gel, podem reduzir a dor por alguns dias, mas não tratam a causa e devem ser usados por período curto e com orientação médica, porque têm efeitos no estômago e nos rins. Nenhum medicamento substitui a redução de carga.

Fisioterapia e correção da pisada

A fisioterapia trabalha o fortalecimento do sóleo, do tibial posterior, dos músculos do pé e do quadril, que são os que amortecem a passada. Em quem tem pronação excessiva, uma palmilha personalizada para corrida reduz a tração sobre a borda interna da tíbia. A análise da corrida pode mostrar passada longa demais ou cadência baixa, dois padrões que aumentam o impacto e podem ser ajustados com treino. Ondas de choque são uma opção em casos que persistem por meses apesar das medidas anteriores.

Canelite grave, com dor ao caminhar ou em repouso, exige afastamento completo da corrida e exame de imagem antes de qualquer retorno. Insistir no treino nessa fase é a principal causa de fratura por estresse da tíbia.

Volta à corrida e prevenção

A corrida é retomada quando é possível caminhar rápido, pular num pé só e apertar a canela sem dor. O retorno começa com trotes curtos intercalados com caminhada, em superfície macia e plana, aumentando o tempo total em cerca de dez por cento por semana. Dor leve que passa até o dia seguinte é aceitável; dor que persiste ou piora pede um passo atrás no planejamento.

Para evitar que a canelite volte, vale manter o fortalecimento duas vezes por semana, alternar asfalto com trilha ou grama, trocar o tênis a cada quinhentos a oitocentos quilômetros, respeitar pelo menos um dia de descanso entre treinos de impacto e cuidar da alimentação e do sono. Corredores que acumulam lesões de sobrecarga na perna, como a tendinite do tendão de Aquiles, costumam se beneficiar de uma revisão completa do plano de treino.

Perguntas frequentes sobre canelite

Canelite tem cura?

Na maioria das pessoas a canelite melhora por completo quando a carga de treino é corrigida e os fatores que causaram a sobrecarga são tratados. O tempo varia de poucas semanas a alguns meses, e a dor tende a voltar se o treino for retomado da mesma forma que antes.

Qual é o remédio para canelite?

Não existe um medicamento que trate a canelite. Anti-inflamatórios por via oral ou em gel podem aliviar a dor por alguns dias, sempre com orientação médica, mas o que resolve é reduzir a carga, corrigir a pisada e o calçado e fortalecer a musculatura da perna.

Posso continuar correndo com canelite?

Depende da intensidade da dor. Se ela aparece só no fim do treino e some no dia seguinte, costuma ser possível manter uma corrida mais curta e leve. Se dói desde os primeiros passos, ao caminhar ou em repouso, o ideal é parar de correr e trocar por atividades sem impacto até a avaliação.

Quanto tempo demora para a canelite melhorar?

Casos leves costumam melhorar em duas a quatro semanas de ajuste do treino. Casos que já duram meses podem levar de dois a três meses para permitir a volta gradual à corrida. Quanto mais cedo a carga é reduzida, mais rápida tende a ser a recuperação.

Qual é o CID da canelite?

Não há um código próprio para canelite. Em atestados e laudos ela costuma ser registrada como M76.8, que corresponde a outras entesopatias do membro inferior, ou com o código da periostite, conforme o julgamento do médico que examinou o paciente.

Como evitar que a canelite volte?

Aumentar o volume de corrida de forma gradual, em torno de dez por cento por semana, alternar superfícies, trocar o tênis quando perder o amortecimento, manter o fortalecimento de panturrilha e quadril e respeitar dias de descanso são as medidas que mais protegem.