A retirada de placa e parafuso no tornozelo é a cirurgia que remove o material usado para fixar uma fratura depois que o osso já consolidou. Ela não é obrigatória: a maior parte dos implantes pode ficar no corpo pelo resto da vida sem causar problema. A retirada entra em pauta quando o material incomoda, quando irrita um tendão, quando se soltou ou quando atrapalha uma nova cirurgia. Decidir bem exige entender o que está causando o desconforto, e a resposta raramente é "rejeição".

Rejeição de parafuso no tornozelo: o que realmente acontece

Muita gente chega ao consultório convencida de que o corpo "rejeitou" o parafuso. A rejeição verdadeira, uma reação alérgica ao metal, existe, mas é rara. Os implantes de titânio e de aço cirúrgico são desenhados para serem tolerados pelo organismo, como explica a página sobre placas e parafusos no pé e tornozelo, materiais e para que servem. O que a pessoa sente é real, mas tem outras causas, e a tabela abaixo resume as mais comuns.

QueixaCausa mais provávelO que costuma resolver
Saliência dura e dolorida na lateral ou na parte interna do tornozeloPlaca ou cabeça de parafuso proeminente sob a pele finaRetirada do material após a consolidação
Dor ao calçar bota ou tênis de cano altoAtrito do calçado sobre a placa da fíbulaAjuste do calçado; retirada se persistir
Dor atrás do osso lateral ao caminhar, com estalosIrritação dos tendões fibulares sobre a placaFisioterapia; retirada se o tendão continuar inflamado
Dor nova meses depois, com parafuso visível "saindo" na radiografiaSoltura do parafuso ou quebra do parafuso da sindesmoseRetirada do parafuso solto
Vermelhidão, calor, secreção ou febreInfecção, não rejeiçãoAvaliação urgente, antibiótico e, às vezes, retirada
Coceira, vermelhidão da pele e eczema persistente sobre o implantePossível sensibilidade a metal, principalmente níquelInvestigação com dermatologista; retirada ou troca por titânio

O tornozelo tem pouca cobertura de pele e gordura sobre o maléolo lateral, o osso saliente de fora, e sobre o medial, o de dentro. Uma placa que seria invisível na coxa é sentida ali a cada passo. Esse é o motivo mais comum de retirada, e nada tem a ver com o corpo não aceitar o material.

Quando a retirada é indicada

  • Proeminência dolorosa. O material faz saliência, dói ao toque, ao calçar ou ao apoiar o tornozelo em algo, e a fratura já consolidou.
  • Irritação de tendão. Os tendões fibulares, atrás do maléolo lateral, ou o tendão tibial posterior, atrás do medial, passam sobre a placa e inflamam.
  • Parafuso solto ou quebrado com sintoma. Um parafuso que recuou e faz relevo sob a pele, ou que se quebrou e incomoda.
  • Parafuso da sindesmose. O parafuso que une a tíbia à fíbula, usado em algumas fraturas, pode ser retirado após alguns meses para devolver o movimento normal entre os dois ossos, conforme o protocolo adotado. Quando ele quebra sem sintoma, em geral pode ficar.
  • Infecção relacionada ao implante. Nesse caso a retirada faz parte do tratamento e costuma ser combinada com antibiótico.
  • Limitação de movimento causada pelo material. Parafuso longo demais que toca uma articulação ou placa que bloqueia a flexão.
  • Nova cirurgia planejada. Artrodese, prótese de tornozelo ou correção de desalinhamento que exigem o espaço ocupado pelo material.
  • Crianças e adolescentes. Em osso que ainda vai crescer, a retirada costuma ser programada.

Também é legítimo retirar a pedido de quem não quer conviver com o material, desde que entenda os riscos e a consolidação esteja confirmada.

Quando não retirar

Material que não incomoda não precisa sair. Retirar "por precaução" troca uma situação estável por uma cirurgia com riscos. Também não se retira enquanto a fratura não consolidou por completo, o que precisa ser confirmado em radiografia e, em caso de dúvida, em tomografia; antes disso o osso ainda depende da placa. Em geral espera-se pelo menos doze a dezoito meses da cirurgia original, embora o prazo varie com o tipo de fratura e com a idade.

Outras situações em que a retirada costuma ser desaconselhada: pessoas com risco anestésico alto ou com circulação comprometida na perna; material profundo cujo acesso exigiria descolar muito tecido; placa quebrada e enterrada sem nenhum sintoma; e parafusos de titânio longos que, pela integração com o osso, podem se partir na tentativa de remoção. Nesses casos, deixar o implante é a decisão mais segura. Quem sente dor no tornozelo com o material no lugar precisa primeiro saber se a dor vem dele ou de outra causa, como rigidez, artrose pós-traumática ou instabilidade ligamentar; o guia sobre dor no tornozelo e suas causas ajuda a separar essas possibilidades.

Como é a cirurgia de retirada

O procedimento é feito em centro cirúrgico, com bloqueio dos nervos da perna e sedação, ou com raquianestesia. A incisão segue a cicatriz da cirurgia anterior, para não criar uma nova. A placa e os parafusos são expostos, soltos um a um e removidos. Quando um parafuso está espanado, quebrado ou coberto por osso, a equipe usa extratores e brocas específicas; por isso é fundamental saber de antemão a marca e o modelo do implante, para que o instrumental compatível esteja na sala.

Em alguns casos, um fragmento de parafuso quebrado fica enterrado no osso de propósito, porque removê-lo causaria mais dano do que deixá-lo. Isso é explicado antes e não traz problema. A cirurgia dura de trinta a sessenta minutos, o tornozelo é fechado com pontos e protegido com curativo, e a alta costuma acontecer no mesmo dia. Depois de retirar o material, o osso fica com os orifícios onde os parafusos estavam, e esses buracos levam algumas semanas para se preencher.

Recuperação após a retirada de placa e parafuso

PeríodoO que esperar
Dias 1 a 7Pé elevado, gelo, analgesia. Apoio permitido conforme a tolerância, com tênis ou sandália pós-operatória. Curativo mantido seco.
Semanas 2 a 3Retirada dos pontos. Caminhadas curtas. Trabalho sentado já costuma ser possível. Início de exercícios de mobilidade.
Semanas 4 a 6Fisioterapia para força e equilíbrio. Dirigir, conforme o lado operado. Sem corrida nem saltos.
Semanas 6 a 8Radiografia de controle. Liberação gradual para impacto quando os orifícios estão preenchidos.
2 a 3 mesesRetorno a esportes de contato e trilhas. O alívio da proeminência é percebido já nas primeiras semanas.

Os riscos específicos incluem infecção da ferida, dormência por lesão de ramos nervosos superficiais que passam perto das cicatrizes, nova fratura pelos orifícios se houver impacto precoce, dor que não melhora quando a causa não era o material, e impossibilidade de retirar todo o implante. Cada um deles é discutido antes da cirurgia. Quem já leu sobre a recuperação após fratura do tornozelo vai notar que esta segunda recuperação é bem mais curta e leve.

Exames e documentos para levar à avaliação

  • Radiografias recentes do tornozelo em três incidências: frente, perfil e a chamada incidência da pinça (mortise).
  • Radiografias antigas, da época da fratura e do pós-operatório, para comparar a consolidação.
  • Relatório ou descrição da cirurgia original, com marca e modelo da placa e dos parafusos. Se não tiver, o hospital onde operou pode fornecer.
  • Tomografia, se já tiver sido feita, ou se houver dúvida sobre a consolidação.
  • Exames de sangue recentes, principalmente se houver suspeita de infecção ou se tiver diabetes.
  • Lista de medicamentos em uso e informação sobre alergias conhecidas a metais ou bijuterias.

Pacientes de outras cidades podem enviar esse material antes e fazer a primeira conversa por teleconsulta para segunda opinião sobre a retirada do implante. O exame físico presencial é feito em Florianópolis antes de marcar a cirurgia.

Resumo para decidir. Dói, faz saliência, irrita tendão ou se soltou, e a fratura já consolidou: a retirada costuma valer a pena. Não incomoda, está firme e não atrapalha nada: deixe onde está. Vermelhidão, calor ou secreção: procure atendimento com urgência, porque isso é infecção, não rejeição.

Perguntas frequentes sobre retirada de placa e parafuso no tornozelo

Meu corpo pode rejeitar o parafuso do tornozelo?

A rejeição verdadeira, uma reação alérgica ao metal, é rara. Titânio e aço cirúrgico são bem tolerados pela imensa maioria das pessoas. O que costuma ser chamado de rejeição é a proeminência do material sob a pele fina do tornozelo, a irritação de tendões sobre a placa ou um parafuso que se soltou. Todos têm solução, e nenhum deles é rejeição.

Quanto tempo depois da fratura posso retirar a placa?

Só depois que a radiografia mostra a fratura consolidada, o que em geral acontece entre doze e dezoito meses após a cirurgia original. Retirar antes disso deixa o osso sem proteção e aumenta o risco de nova fratura. O parafuso da sindesmose é exceção e pode ser retirado mais cedo quando indicado.

A retirada de placa e parafuso é uma cirurgia grande?

É menor do que a cirurgia da fratura, mas ainda é uma cirurgia, com anestesia, incisão e riscos próprios. Costuma durar de trinta a sessenta minutos e a alta acontece no mesmo dia. O que a torna mais trabalhosa é quando um parafuso está espanado ou quebrado, o que exige instrumental específico.

Vou poder andar logo depois de retirar o material?

Na maioria dos casos o apoio é liberado conforme a tolerância, com calçado confortável, já nos primeiros dias. Corrida, saltos e esportes de impacto ficam para depois de seis a oito semanas, porque os orifícios deixados pelos parafusos levam esse tempo para se preencher com osso.