Entorse de tornozelo é a lesão dos ligamentos que seguram a articulação, provocada por uma torção que leva o pé além do seu limite normal de movimento. Na grande maioria das vezes o pé vira para dentro, e os ligamentos do lado de fora do tornozelo são estirados ou rompidos. É a lesão musculoesquelética mais comum em esportes e também acontece em um degrau, em uma calçada irregular ou com salto alto. A gravidade varia de um estiramento leve, que melhora em dias, até a ruptura completa, que exige semanas de proteção e reabilitação cuidadosa.
O que acontece no tornozelo durante a entorse
O tornozelo é estabilizado por ligamentos: três no lado externo, o ligamento deltoide no lado interno e a sindesmose, que une a tíbia à fíbula logo acima da articulação. Quando o pé vira para dentro com o peso do corpo em cima, o primeiro a sofrer é o ligamento talofibular anterior, o mais fino do grupo externo; se a força continua, o calcaneofibular também rompe. Torções com rotação da perna lesionam o deltoide e a sindesmose, as chamadas entorses altas. A anatomia de cada ligamento e o mecanismo de cada tipo de torção estão detalhados no artigo sobre lesões ligamentares agudas do tornozelo.
Sintomas da entorse de tornozelo
- Dor na lateral externa do tornozelo, logo abaixo e à frente da ponta do osso, imediata após a torção.
- Inchaço que aparece em minutos a horas e pode descer para o pé e os dedos.
- Mancha roxa (hematoma) que surge em um a dois dias, por vezes distante do ponto da lesão.
- Dificuldade ou incapacidade de apoiar o pé e mancar.
- Sensação de que o tornozelo está frouxo ou "sai do lugar" nas lesões maiores.
Graus da entorse: 1, 2 e 3
A classificação é feita pelo exame clínico, considerando a dor, o inchaço, a capacidade de apoiar e a frouxidão encontrada nos testes de estabilidade. Ela orienta o tratamento e o prazo de recuperação:
| Grau | Lesão | Sinais | Recuperação habitual |
|---|---|---|---|
| Grau 1 (entorse leve) | Estiramento sem ruptura | Dor leve, pouco inchaço, anda com desconforto, sem frouxidão | 1 a 2 semanas |
| Grau 2 (moderada) | Ruptura parcial | Dor moderada, inchaço e roxo evidentes, dificuldade para apoiar, frouxidão leve | 3 a 6 semanas; esporte em 6 a 12 |
| Grau 3 (grave) | Ruptura completa | Dor intensa no início, inchaço grande, não apoia, instabilidade clara | 6 a 12 semanas; esporte em 3 a 4 meses |
Os prazos são médias: idade, lesões associadas e qualidade da reabilitação mudam o tempo real. Uma entorse grau 2 mal reabilitada pode demorar mais do que uma grau 3 tratada corretamente.
Causas e fatores de risco
- Esportes com salto, mudança de direção e contato: futebol, vôlei, basquete, corrida em trilha.
- Pisar em buraco, degrau ou terreno irregular, principalmente com calçado de solado alto ou salto.
- Entorse anterior mal tratada: o maior fator de risco para uma nova entorse é já ter tido uma.
- Pé cavo, fraqueza dos músculos fibulares, déficit de equilíbrio e frouxidão ligamentar.
Como o diagnóstico é feito
O diagnóstico é clínico. A ortopedista pergunta como foi a torção, se houve estalo, se conseguiu apoiar e se já havia torcido antes. No exame, localiza a dor sobre cada ligamento, palpa os ossos para afastar fratura e realiza os testes de estabilidade, como a gaveta anterior e a inclinação do tálus, que podem ser repetidos depois de alguns dias, quando o inchaço diminui.
A radiografia é pedida seguindo critérios clínicos: incapacidade de dar quatro passos, dor ao apertar a ponta ou a borda de trás dos maléolos, a base do quinto metatarso ou o navicular. Quando a dor óssea persiste, o artigo sobre tornozelo quebrado e tempo de recuperação explica o que muda quando há osso envolvido. A ressonância fica reservada para quadros que não melhoram em seis semanas ou com suspeita de lesão de cartilagem, de tendão ou de sindesmose.
Tratamento da entorse de tornozelo
Primeiras 48 a 72 horas
- Proteção: evitar apoiar enquanto doer; muletas se necessário.
- Gelo por 15 a 20 minutos, três a quatro vezes ao dia, com pano entre o gelo e a pele.
- Compressão com faixa elástica, firme sem apertar a ponto de formigar.
- Elevação do pé acima do coração sempre que estiver deitado.
- Analgesia com analgésico comum; anti-inflamatório por poucos dias, se não houver contraindicação.
Se o tornozelo continua muito inchado depois desse período, ou se o inchaço não acompanha a dor, a página sobre tornozelo inchado lista outras causas que precisam ser consideradas.
Imobilização
No grau 1, uma tornozeleira elástica por uma a duas semanas costuma bastar. No grau 2, órtese semirrígida ou bota por duas a três semanas, permitindo apoio conforme a dor. No grau 3, bota imobilizadora por três a quatro semanas, com apoio progressivo. O gesso prolongado é evitado, porque a imobilização rígida gera rigidez e atrofia. O conceito atual é a imobilização funcional: proteger o ligamento enquanto cicatriza, mas começar a mover cedo.
Reabilitação
É a parte mais importante e a mais negligenciada. A fisioterapia começa na primeira semana e avança em fases: recuperar a mobilidade; fortalecer os músculos fibulares, que puxam o pé para fora e protegem contra a torção; treinar equilíbrio e propriocepção, a capacidade de perceber a posição do pé e reagir antes de torcer; e, por fim, treinar saltos e mudanças de direção. Pular essas etapas é o motivo mais frequente de entorses repetidas e de um tornozelo que fica falhando, quadro descrito na página sobre tornozelo estalando e instabilidade. O retorno ao esporte segue critérios funcionais: sem dor, mobilidade e força iguais às do outro lado e equilíbrio em um pé só sem insegurança.
Retorno ao trabalho e afastamento
Quantos dias de atestado uma entorse costuma exigir depende de dois fatores: o grau da lesão e o que a pessoa faz no trabalho. Quem trabalha sentado pode voltar em poucos dias com o pé elevado, mesmo em um grau 2. Quem fica em pé, caminha muito, carrega peso ou dirige profissionalmente costuma precisar de uma a três semanas no grau 2 e de mais tempo no grau 3. O período é definido na consulta e ajustado nos retornos, conforme a evolução.
Quando a cirurgia é indicada
A maioria das entorses, inclusive as de grau 3, cicatriza sem cirurgia. A operação é considerada em situações específicas: instabilidade crônica, quando o tornozelo continua torcendo e falhando apesar de três a seis meses de reabilitação bem feita; lesões associadas, como fragmento de cartilagem solto, ruptura dos tendões fibulares ou lesão da sindesmose com afastamento dos ossos; e, em casos selecionados, atletas de alto rendimento com ruptura completa. As técnicas incluem o reparo dos ligamentos com reforço local e a reconstrução com enxerto, muitas vezes por via artroscópica, com imobilização curta e reabilitação precoce.
Entorse que não melhora não é "frescura". Dor e inchaço depois de seis semanas, falseios repetidos ou travamento indicam que algo além do ligamento se lesionou, como a cartilagem do tálus ou o osso, a exemplo das lesões do quinto metatarso, que passam despercebidas em torções comuns.
Como evitar uma nova entorse
- Concluir a reabilitação até a fase de saltos e mudanças de direção, mesmo quando a dor já passou.
- Manter exercícios de equilíbrio em um pé só e fortalecimento dos fibulares com elástico.
- Usar tornozeleira em esportes de risco nos primeiros 6 a 12 meses após a lesão.
- Preferir calçado com contraforte firme e solado baixo em terrenos irregulares.
Pacientes de outras cidades podem fazer a orientação inicial e os retornos de acompanhamento por teleconsulta ortopédica, com envio de exames e vídeos dos testes funcionais.
Perguntas frequentes sobre entorse de tornozelo
Qual a diferença entre entorse grau 1, 2 e 3?
No grau 1 o ligamento é estirado sem romper: dor leve, pouco inchaço, a pessoa anda. No grau 2 há ruptura parcial: dor moderada, inchaço e roxo evidentes, dificuldade para apoiar e alguma frouxidão. No grau 3 a ruptura é completa: dor intensa no início, inchaço grande, incapacidade de apoiar e instabilidade clara ao exame.
Entorse de tornozelo grau 2: qual o tempo de recuperação?
Em geral, entre três e seis semanas para caminhar sem dor e retomar a rotina, e de seis a doze semanas para voltar ao esporte com segurança, desde que a reabilitação seja feita. O inchaço residual pode durar mais alguns meses sem significar problema.
Entorse de tornozelo dá quantos dias de atestado?
Depende do grau e do tipo de trabalho. Quem trabalha sentado costuma precisar de poucos dias mesmo em entorses moderadas; quem trabalha em pé, carrega peso ou dirige pode precisar de uma a três semanas no grau 2 e mais tempo no grau 3. O afastamento é definido na consulta, após o exame, e pode ser revisado nos retornos.
Preciso fazer raio-x depois de torcer o tornozelo?
Não em todos os casos. A radiografia é indicada quando a pessoa não consegue dar quatro passos logo após a torção ou no atendimento, quando dói ao apertar a borda posterior ou a ponta dos maléolos, a base do quinto metatarso ou o osso navicular. Fora dessas situações, a chance de fratura é pequena.
Quando a entorse de tornozelo precisa de cirurgia?
Raramente na fase aguda. A cirurgia é considerada quando, apesar de reabilitação bem feita por alguns meses, o tornozelo continua falhando e torcendo, quando há lesão associada de cartilagem, de tendões fibulares ou da sindesmose que não cicatriza, ou em atletas de alto nível com ruptura completa, em decisão individual.