Pé de atleta é a micose no pé causada por fungos chamados dermatófitos, que se alimentam da queratina da pele. O nome médico é tinea pedis. A infecção costuma começar entre os dedos, com coceira, descamação e cheiro forte, mas pode atingir a planta, as bordas do pé e as unhas. É uma das queixas mais frequentes que chegam ao consultório de ortopedia do pé, muitas vezes junto com outra dor, e é também uma das que mais voltam quando o tratamento é interrompido cedo demais.
O que é pé de atleta e por que o fungo gosta do pé
O fungo do pé de atleta precisa de três coisas para crescer: calor, umidade e pele. O pé fechado dentro de meia e tênis por dez horas oferece tudo isso. O nome vem dos vestiários e chuveiros coletivos, onde o fungo se espalha pelo chão molhado, mas qualquer pessoa pode pegar, mesmo quem nunca entrou em uma academia.
A pele entre o quarto e o quinto dedo é o ponto de partida mais comum, porque é o espaço mais apertado e úmido do pé. Dali o fungo avança para os outros espaços, para a planta e, com o tempo, para as unhas, que ficam grossas, amareladas e quebradiças.
Os tipos de tinea pedis
Interdigital
É a forma clássica: pele esbranquiçada, macerada e descamando entre os dedos, com coceira e, às vezes, fissuras que ardem. É a mais fácil de reconhecer e a que melhor responde ao tratamento tópico.
Mocassim (hiperceratósica)
Na tinea pedis tipo mocassim, a planta e as bordas do pé ficam secas, espessas e com descamação fina, desenhando a área que um sapato mocassim cobriria. Coça pouco e é frequentemente confundida com pele seca comum ou com calcanhar rachado por ressecamento. A pista é a descamação em "farinha" que não melhora com hidratante e costuma atingir um pé mais que o outro. É a forma que mais acomete as unhas e a que mais recidiva.
Vesicobolhosa
Surgem bolhas pequenas e agrupadas no arco e na lateral do pé, com coceira intensa. É a forma mais inflamatória e a que mais se confunde com alergia de contato ou eczema.
Causas e fatores de risco
- Calçado fechado por muitas horas, principalmente de material sintético.
- Meias que seguram umidade e são reutilizadas sem lavar.
- Pisos de piscina, vestiário, academia e banheiro coletivo frequentados descalço.
- Suor excessivo nos pés (hiperidrose).
- Diabetes, circulação ruim, obesidade e queda de imunidade.
- Compartilhar toalha, chinelo, tesoura e alicate de unha.
Como o diagnóstico é feito
Na maioria das vezes o diagnóstico é clínico, pela aparência da lesão e pela história. Quando há dúvida, principalmente nas formas mocassim e bolhosa, ou quando o tratamento não funciona, pede-se o exame micológico direto: raspa-se um pouco da pele e o material é examinado no microscópio em busca do fungo. A cultura identifica a espécie e é útil nos casos que não respondem.
Outras condições parecem micose e precisam ser lembradas: eczema, psoríase da planta, dermatite de contato por cola ou tinta do sapato e a queratólise plantar, uma infecção bacteriana que causa pequenas crateras na sola. Tratar qualquer uma delas com antifúngico não resolve.
Tratamento do pé de atleta
Antifúngico tópico: a primeira linha
Para a forma interdigital e para casos leves das outras formas, o tratamento é feito com creme, spray ou solução antifúngica aplicada na área afetada e em uma margem de pele ao redor. As classes mais usadas são os azólicos e as alilaminas; a escolha entre elas depende da apresentação e do que a pessoa já usou antes. O ponto que define sucesso ou fracasso é o tempo: aplicar por duas a quatro semanas, uma ou duas vezes ao dia conforme a classe, e seguir por mais uma a duas semanas depois que a pele parecer normal. O fungo some da vista antes de sumir da pele.
Antifúngico oral: quando o tópico não basta
A forma mocassim extensa, o acometimento das unhas, as lesões muito inflamadas e as recidivas repetidas costumam exigir comprimido por algumas semanas. Como esses medicamentos passam pelo fígado e interagem com outros remédios, a indicação é individual, com avaliação de exames quando necessário.
O que não fazer
Pomada de corticoide isolada alivia a coceira e piora a micose. Receitas caseiras com vinagre, água sanitária ou bicarbonato irritam a pele e abrem porta para bactérias. E interromper o antifúngico na primeira semana é o caminho mais curto para a volta do problema.
Atenção para o pé de atleta grave. Fissura profunda entre os dedos é uma porta de entrada para bactérias. Se aparecer vermelhidão que sobe pelo pé, calor, inchaço, pus ou febre, a situação deixou de ser só micose e precisa de atendimento no mesmo dia. Em quem tem diabetes, o cuidado dobra: a micose é um dos gatilhos mais comuns de infecção no pé diabético, e o guia completo explica o que observar.
Por que o pé de atleta volta
Três motivos respondem pela maioria das recidivas. O primeiro é o tratamento curto, já comentado. O segundo é a reinfecção pelo calçado: o fungo sobrevive dentro do tênis por meses, e quem trata a pele mas calça o mesmo sapato úmido todos os dias se reinfecta. O terceiro é a unha: quando o fungo já chegou à lâmina ungueal, ela funciona como reservatório e devolve a infecção à pele assim que o creme é suspenso. Nesses casos, a unha precisa ser tratada junto, o que leva meses. Unhas espessas pela micose também pressionam a pele ao redor e favorecem a unha encravada, cujo tratamento e prevenção descrevo em outro artigo.
Prevenção: cuidados que funcionam
- Secar bem entre os dedos depois do banho, com toalha própria ou papel.
- Revezar dois pares de tênis, deixando cada um arejar por 24 horas.
- Preferir meias de algodão ou de fibra que afasta o suor, trocadas todos os dias e após o treino.
- Usar chinelo em vestiário, piscina e chuveiro coletivo.
- Borrifar antifúngico em pó ou spray dentro do calçado durante e após o tratamento.
- Não compartilhar alicate, lixa, toalha e calçado.
- Se o suor é intenso, tratar a hiperidrose: pé seco é pé sem fungo.
Quando a ortopedista encaminha ao dermatologista
Como ortopedista de pé e tornozelo, trato as micoses simples que encontro na consulta, porque elas interferem na cicatrização, no uso de palmilhas e em qualquer cirurgia do pé. Encaminho ao dermatologista quando a lesão não responde a duas tentativas de tratamento bem feito, quando as unhas estão amplamente comprometidas, quando a aparência é atípica e exige biópsia, e quando o paciente precisa de antifúngico oral prolongado com acompanhamento de exames. Micose que coça e queima a ponto de confundir com dor neuropática também merece investigação: a queimação no pé tem várias causas, e nem todas estão na pele. Se você está longe de Florianópolis, a teleconsulta com envio de fotos costuma ser suficiente para orientar o início do tratamento.
Perguntas frequentes sobre pé de atleta
Pé de atleta e micose no pé são a mesma coisa?
Sim. Pé de atleta é o nome popular da micose no pé causada por fungos dermatófitos, chamada tinea pedis na linguagem médica. Micoses por outros fungos, como as leveduras, são menos comuns no pé e têm tratamento um pouco diferente.
Quanto tempo dura o tratamento do pé de atleta?
Com antifúngico tópico, o tratamento costuma durar de duas a quatro semanas, e deve continuar por mais uma ou duas semanas após a pele parecer normal. Parar na primeira melhora é a principal causa de recidiva.
Pé de atleta grave existe? Como reconhecer?
Sim. Quando a pele entre os dedos abre em fissuras profundas, surgem bolhas grandes, há pus, vermelhidão que sobe pelo pé ou febre, pode haver infecção bacteriana associada. Nesses casos é preciso avaliação médica rápida, principalmente em pessoas com diabetes.
Pé de atleta passa de uma pessoa para outra?
Sim. O fungo se espalha por pisos úmidos de vestiários, piscinas e banheiros, por toalhas e por calçados compartilhados. Também pode passar do pé para a unha, para a virilha e para as mãos da própria pessoa.
Posso usar pomada de corticoide no pé de atleta?
Não sem orientação. O corticoide alivia a coceira por alguns dias, mas enfraquece a defesa local da pele e faz o fungo se espalhar, mudando a aparência da lesão e dificultando o diagnóstico.
Quando a ortopedista encaminha ao dermatologista?
Quando a micose não responde ao antifúngico tópico, quando há acometimento extenso de unhas, quando a lesão tem aparência atípica e precisa de exame micológico ou biópsia, e quando há necessidade de antifúngico oral prolongado com acompanhamento.