Pé diabético é o nome dado ao conjunto de problemas que o diabetes causa nos pés: perda de sensibilidade pelos nervos danificados (neuropatia), circulação reduzida pelas artérias estreitadas e menor capacidade de combater infecções. Juntos, esses três fatores fazem com que um machucado pequeno, que em outra pessoa fecharia em dias, passe despercebido, infeccione e vire uma úlcera. A boa notícia é que a maior parte das úlceras e das amputações pode ser evitada com hábitos simples, e é isso que este guia ensina.

O que acontece com o pé de quem tem diabetes

Neuropatia: o pé que não avisa

A glicose alta por anos lesa os nervos mais longos do corpo, que são os que chegam aos pés. O primeiro sinal costuma ser o pé dormente, com sensação de meia grossa ou de andar sobre algodão. Depois vêm o formigamento no pé e, em muitas pessoas, a queimação no pé à noite. O perigo está no estágio seguinte: quando a dor desaparece de vez, o pé deixa de avisar que o sapato está apertado, que há uma pedra dentro dele ou que a água do banho está quente demais. A neuropatia também atrofia os pequenos músculos do pé, encurvando os dedos em garra e criando pontos de pressão, e reduz o suor, deixando a pele seca e rachada.

Má circulação: a ferida que não cicatriza

O diabetes acelera o estreitamento das artérias das pernas. Com menos sangue, a pele fica fina, fria e sem pelos, as unhas crescem devagar e qualquer ferida demora a fechar porque faltam oxigênio e células de defesa. Dor na panturrilha ao caminhar, que melhora ao parar, é um sinal de alerta de circulação ruim.

Infecção: o inimigo silencioso

Com defesa local baixa e pouca sensibilidade, a infecção avança sem os sinais habituais. É comum um paciente chegar com osso exposto e dizer que "não doía nada". Micoses entre os dedos e nas unhas funcionam como porta de entrada; o artigo sobre pé de atleta explica por que tratar a micose até o fim importa tanto nesse grupo.

O exame diário dos pés

É a medida mais eficaz de todas e leva dois minutos. Faça todas as noites, sentado, com boa luz, usando um espelho para a planta ou pedindo ajuda a alguém da casa. Procure:

  • Bolhas, cortes, arranhões ou pontos de sangue, por menores que sejam.
  • Vermelhidão, calor ou inchaço em qualquer região, comparando um pé com o outro.
  • Calos e áreas de pele endurecida, principalmente na planta e nos dedos: debaixo de um calo pode haver uma úlcera.
  • Rachaduras no calcanhar, que são porta de entrada para bactérias. O calcanhar rachado em quem tem diabetes exige hidratação diária e, se aprofundar, avaliação.
  • Pele macerada ou esbranquiçada entre os dedos.
  • Unhas encravadas, grossas, amareladas ou com pus ao redor. A unha encravada nunca deve ser tratada em casa por quem tem diabetes.
  • Mudança de cor: dedo pálido, roxo ou escuro.

Qualquer achado novo que não melhore em dois dias merece contato com o médico. Fotografar o pé no celular ajuda a comparar de um dia para o outro.

Cuidados diários que previnem a úlcera

  • Lave os pés todos os dias com água morna, testando a temperatura com o cotovelo, e seque bem entre os dedos.
  • Hidrate a planta e o dorso com creme, mas não passe entre os dedos.
  • Corte as unhas retas, após o banho, e lixe os cantos. Se a visão ou a flexibilidade não permitem, delegue a um podólogo que saiba que você tem diabetes.
  • Nunca corte calos nem use produtos químicos para removê-los.
  • Não ande descalço, nem em casa, nem na praia.
  • Olhe e sacuda o calçado antes de calçar, procurando objetos ou costuras soltas.
  • Use meia sem costura e sem elástico apertado, de preferência clara, para notar qualquer secreção.
  • Não use bolsa de água quente, aquecedor nem lareira perto dos pés.
  • Mantenha glicose, pressão e colesterol controlados e não fume: o cigarro fecha as artérias que o pé precisa.

O calçado certo para o pé diabético

O sapato errado é a causa mais comum de úlcera no pé diabético. O adequado é fechado, de couro macio ou tecido, com bico largo e alto para acomodar dedos em garra, sem costuras internas, com contraforte firme, solado que não dobra no meio e espaço para palmilha. Compre no fim da tarde, quando o pé está mais inchado, e deixe um dedo de folga na ponta. Sapatos novos devem ser usados por uma hora no primeiro dia, examinando o pé em seguida. Pés com deformidades, calos recorrentes ou úlcera já cicatrizada precisam de palmilhas personalizadas que redistribuem a pressão e, em alguns casos, de calçado feito sob medida. Chinelo de dedo, sandália de tira fina e sapato de bico fino ficam fora da lista.

Sinais de alerta e quando é urgência

O que você observaO que pode serO que fazer
Calo com ponto escuro ou sangue embaixoÚlcera escondida sob o caloConsulta em poucos dias, não remover em casa
Ferida aberta sem pus, limpaÚlcera inicialConsulta em até 48 horas, retirar a pressão do local
Ferida com pus, mau cheiro, vermelhidão que se espalhaInfecçãoAtendimento no mesmo dia
Pé quente, vermelho e inchado de um lado, sem feridaPé de Charcot ou infecção profundaAtendimento no mesmo dia e repouso do pé
Dedo frio, pálido ou escuro, dor súbitaFalta de circulação agudaPronto-socorro imediatamente
Febre com qualquer ferida no péInfecção disseminadaPronto-socorro imediatamente

A regra das 24 horas. No pé diabético, uma infecção pode passar de superficial a profunda em um dia. Ferida com pus, área escura, vermelhidão que avança ou febre nunca esperam a consulta marcada. Procure atendimento no mesmo dia, mesmo que não doa, e principalmente se não doer.

Pé de Charcot: a deformidade que imita infecção

Em uma parcela das pessoas com neuropatia avançada, os ossos do meio do pé enfraquecem, sofrem microfraturas e vão se deslocando sem que a pessoa sinta dor compatível. O pé fica quente, vermelho e inchado, muito parecido com uma infecção, mas sem ferida. Se continuar apoiando, o arco desaba e a planta fica convexa, em formato de "mata-borrão", criando uma zona de pressão que ulcera. O tratamento exige imobilização total e sem carga por meses, e por isso reconhecer cedo faz toda a diferença. Pé quente e inchado de um lado só, em quem tem diabetes, é motivo de consulta imediata.

Acompanhamento e o papel da ortopedista

Toda pessoa com diabetes deve ter os pés examinados ao menos uma vez por ano pelo médico, com teste de sensibilidade com monofilamento e diapasão, palpação dos pulsos e avaliação de calçado e deformidades. Quem já tem neuropatia, deformidade, calos recorrentes ou úlcera cicatrizada entra em acompanhamento mais frequente, a cada um a três meses. A ortopedista de pé e tornozelo cuida das deformidades que geram pressão, como dedos em garra, joanetes e Charcot, prescreve palmilhas e calçados de descarga, trata úlceras com retirada de pressão e, quando necessário, opera para remover saliências ósseas ou corrigir o alinhamento, em conjunto com o endocrinologista e o cirurgião vascular. Se você tem diabetes e nunca teve os pés examinados, ou se percebeu algum dos sinais deste guia, a teleconsulta com envio de fotos dos pés é um bom primeiro passo para definir a urgência e o plano de cuidados.

Perguntas frequentes sobre pé diabético

O que é pé diabético?

É o conjunto de alterações nos pés de quem tem diabetes, causadas pela perda de sensibilidade (neuropatia), pela má circulação e pela maior facilidade de infecção, que tornam qualquer machucado capaz de virar úlcera e, se não tratado, levar à amputação.

Com que frequência devo examinar os pés?

Todos os dias, de preferência à noite, olhando a planta, entre os dedos e as unhas, com espelho ou ajuda de alguém. O exame com o médico deve ser feito ao menos uma vez por ano, e com mais frequência se já houver neuropatia, deformidade ou úlcera prévia.

Quem tem diabetes pode andar descalço?

Não é recomendado, nem em casa nem na praia. Com a sensibilidade reduzida, um caco de vidro, uma pedra ou a areia quente podem ferir ou queimar o pé sem que a pessoa perceba.

Que calçado é adequado para o pé diabético?

Fechado, de material macio, bico largo e alto, sem costuras internas, com solado firme e palmilha que distribui a pressão. Deve ser comprado no fim da tarde e usado com meia sem elástico apertado. Pés com deformidade ou úlcera prévia precisam de calçado e palmilha feitos sob medida.

Quando o pé diabético é urgência?

Quando há ferida com pus, mau cheiro ou área escura, vermelhidão que se espalha, pé quente e inchado de um lado só, febre, dor intensa súbita ou dedo frio e pálido. Nesses casos é preciso atendimento no mesmo dia, em pronto-socorro se necessário.

O que é o pé de Charcot?

É uma complicação da neuropatia em que os ossos do pé enfraquecem, fraturam e se deformam sem dor proporcional. Começa com pé quente, vermelho e inchado, parecido com infecção, e exige imobilização imediata para evitar o desabamento do arco.