Tenossinovite dos fibulares é a inflamação da bainha que envolve os dois tendões fibulares, o fibular longo e o fibular curto, que passam por trás do osso saliente da face externa do tornozelo (o maléolo lateral) e seguem até o pé. Ela causa dor, inchaço e, às vezes, sensação de estalo na lateral do tornozelo, que piora ao caminhar em terreno irregular, ficar na ponta dos pés ou virar o pé para fora. É uma causa frequente de dor que insiste depois de uma torção.
O que é tenossinovite e como ela difere da sinovite
Todo tendão que faz curva em torno de um osso desliza dentro de uma bainha sinovial, uma capa fina e lisa que produz um líquido lubrificante. Tenossinovite é a inflamação dessa bainha. Ela incha, produz líquido demais, e o tendão, que antes deslizava sem atrito, passa a raspar e doer a cada movimento. Com o tempo, o atrito repetido pode lesar o próprio tendão.
Sinovite e tenossinovite são confundidas com frequência. A sinovite é a inflamação da membrana que reveste uma articulação, como o tornozelo; o inchaço fica dentro da junta e é difuso. Na tenossinovite, o inchaço acompanha o trajeto do tendão, em forma de cordão ou salsicha, e a dor aparece quando esse tendão é alongado ou contraído. O mesmo processo ocorre em outros tendões do pé, como explico na página sobre a tenossinovite no pé e do tibial anterior; aqui o foco é a face lateral do tornozelo.
Sintomas de tenossinovite dos fibulares
- Dor atrás e abaixo do osso lateral do tornozelo, que pode descer pela borda externa do pé.
- Inchaço em forma de cordão ao longo dos tendões, às vezes com calor local.
- Dor ao ficar na ponta dos pés, ao virar a sola para fora contra resistência e ao descer escadas.
- Sensação de instabilidade ou de "tornozelo que falha" em piso irregular.
- Estalo ou ressalto atrás do maléolo, que pode indicar que o tendão está saindo do lugar.
Quando a dor é no tornozelo de forma mais ampla, sem esse trajeto definido, vale revisar as outras causas de dor no tornozelo antes de atribuir tudo aos fibulares.
O sinal de Kanavel como conceito de tenossinovite
Quem pesquisa tenossinovite encontra o sinal de Kanavel, ou sinais de Kanavel. Eles foram descritos para a tenossinovite infecciosa dos tendões flexores da mão e são quatro: dedo inchado de forma uniforme, dedo mantido levemente dobrado, dor intensa ao esticá-lo e dor à pressão ao longo da bainha. Não são usados como regra no pé, mas ensinam o raciocínio que aplico ao examinar os fibulares: inchaço que segue o tendão inteiro, dor ao alongar o tendão e dor ao apertar a bainha apontam para tenossinovite, e não para problema da articulação. Se a esses sinais se somam febre, vermelhidão intensa e dor desproporcional, a hipótese passa a ser infecção da bainha, que é urgência.
Causas e fatores de risco
A causa mais comum é a sobrecarga: aumento rápido de corrida, trilhas, caminhada em areia fofa ou em terreno inclinado, saltos e esportes com mudança de direção. O segundo grupo é o trauma: uma torção do tornozelo para dentro estira os fibulares com violência, e a bainha inflama junto com os ligamentos. Por isso tantos pacientes chegam com dor lateral que "ficou" depois de uma entorse de tornozelo tratada apenas com gelo.
Alguns fatores anatômicos aumentam o risco: o pé cavo, com arco alto e calcanhar virado para dentro, joga a carga para a borda externa e trabalha os fibulares o tempo todo; o sulco raso atrás do maléolo e a frouxidão do retináculo (a faixa que segura os tendões no lugar) favorecem a luxação; e o osso fibular acessório (os peroneum), um ossinho dentro do tendão fibular longo, pode irritar a bainha. Quem tem pé cavo e dor lateral recorrente deve ter os fibulares examinados com atenção. Doenças inflamatórias, como artrite reumatoide e espondiloartrites, também produzem tenossinovite sem trauma.
Como o diagnóstico é feito
O exame clínico resolve a maior parte: localizo o inchaço, peço força de eversão (virar a sola para fora) contra resistência, alongo o tendão e procuro o ressalto de luxação. A radiografia afasta fratura e mostra o os peroneum ou um fragmento de avulsão da base do quinto metatarso. A ultrassonografia é o exame mais útil: mostra o líquido na bainha, a espessura do tendão, fissuras longitudinais e, feita em movimento, a luxação. A ressonância magnética entra quando há suspeita de ruptura, lesão associada da cartilagem ou quando se planeja cirurgia.
Tratamento da tenossinovite dos fibulares
Fase aguda
Reduzir a carga sem imobilizar por completo: diminuir corrida e trilhas, evitar terreno irregular, usar tênis com contraforte firme e, nos casos mais dolorosos, bota imobilizadora por duas a três semanas. Gelo, elevação e anti-inflamatório por período curto, quando não há contraindicação, ajudam a controlar o processo. Se o tornozelo fica muito inchado e quente, vale conferir a lista de causas de tornozelo inchado, porque nem todo inchaço lateral é dos fibulares.
Fisioterapia
É a parte que define o resultado. O programa inclui fortalecimento progressivo dos fibulares com elástico, trabalho excêntrico, propriocepção em superfícies instáveis para devolver o controle do tornozelo e alongamento da panturrilha. Em pé cavo, uma palmilha com cunha lateral reduz a tração sobre os tendões.
Infiltração
Quando a inflamação da bainha não cede, a infiltração de corticoide dentro da bainha, guiada por ultrassom, pode ser indicada, com o cuidado de não injetar dentro do tendão. Descrevo como funciona na página sobre infiltração guiada por ultrassom no pé e tornozelo. É um recurso de controle de dor, não um substituto da reabilitação.
Cirurgia
Fica reservada para dor que persiste após três a seis meses de tratamento bem conduzido, para luxação recorrente dos tendões, para fissuras longitudinais extensas e para o os peroneum doloroso. Dependendo do achado, faz-se limpeza da bainha, reparo do tendão, aprofundamento do sulco ou reconstrução do retináculo. O tempo de recuperação varia de seis semanas a quatro meses.
| Situação | Conduta habitual | Tempo estimado |
|---|---|---|
| Tenossinovite aguda após sobrecarga | Redução de carga, gelo, calçado firme, fisioterapia | 4 a 8 semanas |
| Tenossinovite após entorse | Tratar ligamentos e tendões juntos, propriocepção | 6 a 12 semanas |
| Crônica com fissura do tendão | Fisioterapia prolongada, palmilha, avaliar cirurgia | 3 a 6 meses |
| Luxação recorrente | Reconstrução do retináculo | 3 a 4 meses após cirurgia |
Quando não esperar. Dor lateral com febre, vermelhidão que se espalha e dor intensa ao mover os dedos pode ser tenossinovite infecciosa. Estalo forte seguido de fraqueza para virar o pé para fora pode ser ruptura. Nos dois casos, procure atendimento no mesmo dia. Para os demais, se a dor passa de três semanas, uma avaliação por teleconsulta já orienta exames e os primeiros passos.
Perguntas frequentes sobre tenossinovite dos fibulares
O que é tenossinovite, em palavras simples?
É a inflamação da bainha sinovial, a capa fina que envolve o tendão e produz o líquido que o lubrifica. Quando a bainha inflama, ela incha, produz líquido em excesso e o tendão passa a deslizar com dor.
Qual a diferença entre sinovite e tenossinovite?
Sinovite é a inflamação da membrana sinovial que reveste uma articulação, como o tornozelo. Tenossinovite é a inflamação da bainha sinovial que envolve um tendão. As duas produzem inchaço e dor, mas em estruturas diferentes.
O que é o sinal de Kanavel e ele vale para o pé?
São quatro sinais descritos para a tenossinovite infecciosa dos tendões flexores da mão: dedo inchado como salsicha, dedo mantido levemente dobrado, dor ao esticar o dedo e dor ao apertar o trajeto do tendão. No pé eles não são usados como regra, mas a lógica é a mesma: inchaço ao longo de todo o trajeto do tendão, dor ao alongá-lo e dor à pressão sobre a bainha apontam para tenossinovite.
Tenossinovite dos fibulares melhora sem cirurgia?
A maioria dos casos melhora com repouso relativo, calçado adequado, fisioterapia e controle da inflamação. A cirurgia fica reservada para casos que não respondem após alguns meses ou quando há ruptura, luxação do tendão ou osso acessório irritando a bainha.
Quanto tempo leva para melhorar?
Casos agudos costumam responder em quatro a oito semanas. Casos crônicos, com tendão já degenerado, podem levar três a seis meses de fisioterapia e ajuste de atividade.