Fibromatose plantar é o crescimento benigno de tecido fibroso dentro da fáscia plantar, a faixa que vai do calcanhar aos dedos e sustenta o arco do pé. Ela forma um ou mais nódulos firmes na sola, em geral no meio do arco, do lado interno, que se percebem ao passar a mão ou ao pisar. É conhecida como doença de Ledderhose, nome do médico alemão que a descreveu no fim do século dezenove. Não é câncer, mas pode crescer, doer e dificultar o uso de calçados.
O que é fibromatose plantar
A fáscia plantar é feita de fibras de colágeno organizadas em feixes. Na fibromatose, células chamadas fibroblastos se multiplicam de forma desordenada em um ponto da fáscia e produzem colágeno em excesso, formando um nódulo endurecido. O processo é parecido com o que ocorre na palma da mão na contratura de Dupuytren, e as duas condições pertencem ao mesmo grupo de doenças, as fibromatoses superficiais. Uma parcela dos pacientes tem as duas, e alguns também apresentam nódulos no pênis, na doença de Peyronie.
Diferente da mão, onde o tecido doente puxa os dedos para dentro, no pé a fibromatose raramente causa contratura dos dedos. O problema aqui é o volume do nódulo sob o arco, que é comprimido a cada passo. Todo caroço nessa região merece exame, e as possibilidades estão comparadas na página sobre nódulo no pé: quando se preocupar.
Sintomas da fibromatose plantar
- Um ou mais caroços firmes, de meio a três centímetros, na sola do pé, no arco, mais perto da borda interna.
- Nódulo que não se move sob a pele, porque faz parte da fáscia, e que fica mais evidente quando se puxam os dedos para cima.
- Sem dor na maioria dos casos iniciais. Quando dói, é ao pisar, ao apertar ou com calçado de solado fino.
- Sensação de "pedra no sapato" ou de andar sobre um calombo.
- Crescimento lento ao longo de meses ou anos, às vezes com fases de aumento mais rápido.
- Nos dois pés em cerca de um quarto a metade dos casos.
Nódulos que crescem depressa, que são muito dolorosos em repouso, que ulceram a pele ou que ficam fora do trajeto da fáscia precisam de investigação com imagem para afastar outros diagnósticos. A página sobre caroço no pé em outras localizações explica as causas de volume no dorso, nos dedos e no calcanhar.
Causas e fatores de risco
A causa exata não é conhecida. Os fatores associados são:
- Predisposição genética, com casos na família e ligação com Dupuytren e Peyronie.
- Sexo masculino e idade entre quarenta e setenta anos, embora possa ocorrer em jovens.
- Microtraumas repetidos na sola, por esportes, trabalho em pé ou pé cavo com fáscia tensa.
- Diabetes, epilepsia de longa data e alguns anticonvulsivantes.
- Doença hepática crônica e consumo elevado de álcool.
- Cirurgia ou trauma prévio na fáscia, em uma parcela dos casos.
Como o diagnóstico é feito
O exame físico costuma ser suficiente: o nódulo tem localização típica, é firme, aderido à fáscia e se acentua quando a fáscia é tensionada. O ultrassom confirma que o nódulo está dentro da fáscia, mede o tamanho, mostra se há mais de um e serve para acompanhar o crescimento. A ressonância magnética é pedida quando há dúvida sobre a natureza da lesão, quando o nódulo é grande ou profundo ou quando se planeja cirurgia, porque mostra a extensão exata na fáscia e a relação com os tendões e nervos vizinhos. Biópsia só é necessária em lesões atípicas. É também preciso diferenciar o nódulo de uma ruptura parcial antiga da fáscia, que forma uma cicatriz espessa, e da própria fascite plantar com espessamento da fáscia, que dói no calcanhar e não forma caroço no arco.
Como a fibromatose plantar evolui
| Fase | O que se observa | Conduta habitual |
|---|---|---|
| Inicial, proliferativa | Nódulo pequeno, pode crescer em meses, pouca ou nenhuma dor | Observação, calçado e palmilha de descarga |
| Ativa | Nódulo maior, dor ao pisar, às vezes novos nódulos | Palmilha, fisioterapia, avaliação para infiltração |
| Residual, estável | Nódulo firme que parou de crescer, dor variável | Manter medidas; cirurgia apenas se a dor limitar |
Em muitas pessoas o nódulo atinge um tamanho e se estabiliza. Ele raramente some sozinho, mas também raramente causa incapacidade. O acompanhamento periódico, com medida do nódulo, é parte do tratamento.
Tratamento conservador da fibromatose plantar
Para a maioria dos pacientes o objetivo é tirar a pressão de cima do nódulo e controlar a dor, sem mexer na fáscia:
- Palmilha de descarga, com um recorte ou uma área de material macio exatamente sob o nódulo, de modo que ele não seja comprimido a cada passo. A confecção a partir do molde do pé está descrita na página sobre palmilhas sob medida com alívio localizado.
- Calçado com solado grosso e amortecido, que não deixe o nódulo sentir o chão.
- Alongamento da fáscia e da panturrilha, que reduz a tensão sobre o tecido doente, e fisioterapia com liberação manual.
- Analgésicos e anti-inflamatórios por curto período em fases de dor, com orientação.
- Infiltração de corticoide dentro do nódulo, guiada por ultrassom, que pode amolecê-lo e reduzir a dor por alguns meses, em geral em uma série de até três aplicações. Há risco de afinar a gordura plantar, por isso é feita com critério.
- Colagenase e radioterapia de baixa dose são opções descritas na literatura para casos selecionados, com disponibilidade limitada no Brasil e indicação individual.
- Ondas de choque, com resultados variáveis para dor, em alguns estudos.
Não tente "estourar", massagear com força ou aplicar produtos cáusticos sobre o nódulo. O tecido é parte da fáscia, e o trauma repetido pode estimular o crescimento e inflamar a região.
Quando operar a fibromatose plantar
A cirurgia é reservada aos casos em que a dor impede caminhar ou usar calçados e não melhorou com as medidas conservadoras ao longo de meses. Isso porque a fibromatose tem uma característica frustrante: tende a voltar depois de retirada. Quanto menor a margem de fáscia removida, maior a chance de recidiva; quanto maior a retirada, maior o risco de complicações como cicatriz dolorosa, lesão de nervos da sola e perda da função do arco.
As técnicas vão da retirada local do nódulo, com maior recidiva, à fasciectomia subtotal, em que grande parte da fáscia é removida, com menor recidiva mas recuperação mais longa. A escolha depende do tamanho, do número de nódulos e das atividades do paciente. Depois da cirurgia, o pé fica protegido por duas a três semanas sem carga completa, e o retorno ao calçado comum e às atividades leva de seis semanas a três meses. Pacientes que já têm ultrassom ou ressonância podem discutir a indicação por teleconsulta com análise dos exames.
Perguntas frequentes sobre fibromatose plantar
O que é fibromatose plantar?
É o crescimento benigno de tecido fibroso dentro da fáscia plantar, a faixa que sustenta o arco do pé, formando um ou mais nódulos firmes na sola. Também é chamada de doença de Ledderhose. Não é câncer e não se espalha para outros órgãos, mas pode crescer, doer e atrapalhar a pisada.
Nódulo na sola do pé é perigoso?
Na grande maioria dos casos, não. O nódulo da fibromatose plantar é benigno. Ainda assim, todo caroço na planta do pé deve ser examinado, porque outras lesões, como cistos, lipomas e, raramente, tumores de partes moles, podem se parecer com ele. O ultrassom ou a ressonância diferenciam.
Fibromatose plantar tem cura?
O nódulo raramente desaparece sozinho, mas em muitas pessoas ele para de crescer e deixa de incomodar com medidas simples, como palmilha e calçado adequado. Mesmo após a retirada cirúrgica há chance de o nódulo voltar, por isso a cirurgia é reservada aos casos com dor que não responde a nada.
Fibromatose plantar tem relação com a contratura de Dupuytren?
Sim. As duas fazem parte do mesmo grupo de fibromatoses superficiais. A contratura de Dupuytren acomete a palma da mão e os dedos; a doença de Ledderhose acomete a sola do pé. Uma parcela das pessoas tem as duas, e há componente familiar.
Quando a fibromatose plantar precisa de cirurgia?
Quando o nódulo cresce a ponto de impedir o uso de calçados e a caminhada, e a dor não melhora com palmilhas, fisioterapia e infiltração. A técnica retira a área doente da fáscia com margem, e mesmo assim existe risco de recidiva, o que é discutido com o paciente antes de decidir.