Pé chato, ou pé plano, é o pé em que o arco interno é baixo ou desaparece quando a pessoa fica em pé, de modo que quase toda a sola encosta no chão. Os pés chatos são normais nos primeiros anos de vida e permanecem em uma parcela dos adultos sem causar nenhum problema. Em outros casos, o arco baixo vem acompanhado de dor, cansaço, calcanhar virado para fora e, no adulto, de uma lesão do tendão que sustenta o arco, o tibial posterior.

O que é pé plano e por que o arco cai

O arco do pé é mantido pelo formato dos ossos, pelos ligamentos que os unem e por músculos, em especial o tibial posterior, um tendão que passa atrás do osso interno do tornozelo e se prende no meio do pé. Quando essa estrutura cede, o calcanhar inclina para fora, o meio do pé desaba para dentro e a frente do pé gira para fora. Esse conjunto é chamado de pé plano valgo.

É útil separar dois grupos. O pé plano flexível tem o arco presente quando a pessoa fica na ponta dos pés e ausente quando apoia o peso; é o tipo mais comum, costuma ser familiar e, na maior parte das vezes, não dói. O pé plano rígido não forma arco em nenhuma posição, tem o movimento do pé limitado e costuma ter uma causa estrutural, como a fusão anormal entre ossos do pé ou artrose. Nos dois casos, a palmilha personalizada para pé chato é a primeira ferramenta de tratamento quando há sintomas, mas a investigação e os limites do que ela consegue são diferentes.

Pé chato em criança

Quase todos os bebês têm pés chatos. Há um coxim de gordura na sola que esconde o arco, e os ligamentos são frouxos. O arco vai se formando conforme a criança anda e fortalece os músculos, e esse processo costuma se completar entre os seis e os dez anos. Por isso, pé chato flexível, simétrico e sem dor em criança pequena não é doença e não precisa de palmilha, bota ortopédica ou exercício especial.

Os sinais que pedem avaliação são dor no pé ou na perna, cansaço que faz a criança pedir colo cedo demais, tropeços frequentes, um pé diferente do outro, rigidez ao tentar mover o pé e arco que não aparece na ponta dos pés. Em crianças maiores e adolescentes com pé plano rígido e doloroso, a causa mais comum é a coalizão tarsal, uma ponte óssea entre ossos do pé, que precisa ser identificada por imagem.

Pé plano no adulto e a disfunção do tibial posterior

No adulto, o pé plano pode ser a continuação do pé chato da infância ou pode surgir de forma nova, em geral depois dos quarenta anos, em um pé que antes tinha arco. Essa segunda situação é chamada de pé plano adquirido do adulto, e a causa habitual é a disfunção do tendão tibial posterior. O tendão vai sofrendo desgaste, inflama, alonga e deixa de segurar o arco. A pessoa percebe dor e inchaço na parte interna do tornozelo, dificuldade para ficar na ponta de um pé só e um pé que foi "achatando" ao longo de meses. Os detalhes dessa lesão estão na página sobre a tenossinovite do tibial posterior.

Mulheres acima dos quarenta anos, pessoas com sobrepeso, diabetes, hipertensão, doenças reumáticas e quem já tinha pé chato flexível têm mais chance de desenvolver o quadro. Reconhecê-lo cedo faz diferença, porque nas fases iniciais a deformidade ainda é flexível e responde melhor ao tratamento.

Sintomas do pé chato

  • Arco baixo ou ausente ao ficar em pé, com a marca do pé molhado mostrando a sola inteira.
  • Calcanhar inclinado para fora; visto por trás, aparecem "dedos demais" do lado de fora do pé.
  • Dor no arco do pé, na parte interna do tornozelo ou na borda externa, onde ossos passam a se tocar.
  • Cansaço nas pernas e nos pés depois de caminhar ou ficar em pé.
  • Desgaste do calçado pela parte interna do solado.
  • Joanete e calos sob a frente do pé, por sobrecarga do dedão.
  • No adulto com lesão do tendão: inchaço atrás do osso interno do tornozelo e dificuldade de ficar na ponta do pé.

Quem sente dor principalmente na região do arco encontra outras causas possíveis na página sobre dor no arco do pé.

Como o diagnóstico é feito

O exame é feito com a pessoa em pé, caminhando e na ponta dos pés. A médica observa a altura do arco, a inclinação do calcanhar, a flexibilidade do pé e o encurtamento da panturrilha, que acompanha a maioria dos pés planos. O teste de ficar na ponta de um pé só avalia a força do tibial posterior. As radiografias com carga medem os ângulos do arco e do calcanhar e mostram artrose ou coalizão. A ressonância magnética é pedida quando há suspeita de lesão do tendão ou dos ligamentos, e a tomografia detalha coalizões e articulações desgastadas.

CaracterísticaPé plano flexívelPé plano rígido
Arco na ponta dos pésApareceNão aparece
Movimento do péNormal ou aumentadoLimitado
Causa habitualFormato familiar, frouxidão ligamentar, tendão tibial posterior nas fases iniciaisCoalizão tarsal, artrose, sequela de fratura, fases avançadas da disfunção do tendão
Tratamento inicialPalmilha, calçado, fortalecimentoImagem para definir a causa; palmilha de acomodação

Tratamento do pé plano: quando a palmilha ajuda

No pé chato flexível com sintomas, a palmilha com apoio do arco e cunha no calcanhar reduz a pronação, melhora o alinhamento do joelho e diminui a dor e o cansaço. Ela funciona enquanto está no calçado e não "cura" o formato do pé, o que não é um problema: o objetivo é conforto e função. O calçado precisa ter contraforte firme e solado estável. Alongar a panturrilha todos os dias e fortalecer o tibial posterior e os músculos do pé completam o tratamento, e a fisioterapia orienta essa parte.

No adulto com disfunção do tibial posterior, o tratamento das fases iniciais inclui, além da palmilha, uma órtese ou bota por algumas semanas para o tendão desinflamar, controle do peso e fisioterapia dirigida. Anti-inflamatórios por curto período podem ser usados com orientação. Infiltração de corticoide dentro da bainha desse tendão é evitada, porque aumenta o risco de ruptura.

Palmilha vendida como "corretiva" para criança com pé chato flexível e sem dor não tem benefício demonstrado. O arco se forma com o crescimento, e o que a criança precisa é andar descalça em superfícies seguras, brincar e usar calçado leve e flexível.

Quando o pé chato precisa de cirurgia

A cirurgia é indicada quando a dor persiste apesar do tratamento bem feito, quando a deformidade progride ou quando há coalizão tarsal ou artrose sintomática. No pé plano flexível do adolescente e do adulto jovem, as técnicas combinam osteotomia do calcâneo, que desloca o calcanhar para dentro, alongamento da panturrilha e reforço do tendão com transferência de outro tendão. No adulto com disfunção avançada e pé rígido, a correção é feita com artrodeses, fusões das articulações desgastadas, que alinham o pé de forma estável. Na criança com coalizão, a ponte óssea pode ser ressecada.

A recuperação envolve algumas semanas sem apoiar o pé, bota, fisioterapia e retorno gradual, num total de quatro a seis meses. O planejamento e a escolha das técnicas dependem das radiografias e da avaliação individual. O pé plano também favorece o desvio do dedão, e a relação entre os dois problemas é explicada na página sobre joanete e sobrecarga do primeiro raio.

Perguntas frequentes sobre pé chato e pé plano

Pé chato em criança precisa de tratamento?

Na grande maioria das crianças, não. O arco se forma de forma gradual até os seis a dez anos, e o pé chato flexível e sem dor faz parte do desenvolvimento normal. O tratamento é indicado quando há dor, cansaço que limita brincadeiras, rigidez ou assimetria entre os pés.

Pé plano tem cura?

O pé plano flexível é um formato de pé, não uma doença, e não precisa ser curado. Quando dá sintomas, eles costumam melhorar com palmilhas, calçado e fortalecimento. O pé plano adquirido do adulto, causado pela falha do tendão tibial posterior, pode ser estabilizado nas fases iniciais e corrigido por cirurgia nos casos avançados.

Palmilha corrige o pé chato?

A palmilha não muda o formato do osso, mas apoia o arco, reduz a inclinação do calcanhar e alivia a sobrecarga do tendão tibial posterior enquanto o pé está calçado. Para a maioria das pessoas com sintomas, isso basta para reduzir a dor e o cansaço.

Qual é a diferença entre pé plano flexível e rígido?

No pé plano flexível o arco aparece quando a pessoa fica na ponta dos pés ou senta, e some ao apoiar o peso. No pé plano rígido o arco não aparece em nenhuma posição, e o pé tem movimento limitado. O rígido costuma ter causa estrutural, como coalizão tarsal ou artrose, e exige investigação por imagem.

Quando o pé plano precisa de cirurgia?

Quando a dor persiste apesar de palmilhas, calçado e fisioterapia, quando a deformidade progride e o pé vai se virando para fora, ou quando há coalizão tarsal ou artrose com sintomas. No adulto com disfunção do tibial posterior, operar antes de a deformidade ficar rígida permite técnicas que preservam as articulações.