Síndrome de Müller-Weiss, também escrita como síndrome de Mueller-Weiss, é a osteonecrose espontânea do navicular no adulto. O navicular é o osso em forma de barco que fica no topo do arco interno do pé, entre o tálus e os cuneiformes. Quando parte dele perde o suprimento de sangue, o osso enfraquece, é comprimido pela carga do corpo, se deforma em forma de vírgula e pode se partir. O quadro é raro, atinge mais mulheres entre quarenta e sessenta anos, costuma acometer os dois pés e provoca uma dor no meio do pé que se arrasta por anos antes de receber o nome certo.
O que acontece no navicular
O navicular recebe sangue por vasos que entram pelas bordas, e a sua porção lateral, a mais externa, é a menos irrigada. Na síndrome de Müller-Weiss, essa região sofre com a compressão repetida vinda do tálus, que se encaixa atrás dele, e dos cuneiformes, que ficam à frente. O osso se achata do lado de fora, o fragmento interno se desloca para dentro e para cima, e o arco do pé muda de formato. Com o tempo, as articulações ao redor, principalmente a talonavicular, desenvolvem artrose.
Um detalhe ajuda a entender a deformidade: diferente do pé plano comum, em que o calcanhar vira para fora, aqui o calcanhar costuma virar para dentro, o chamado pé plano paradoxal. Essa combinação de arco baixo com calcanhar em varo é uma das pistas do diagnóstico. A dor é sentida na parte interna e no dorso do meio do pé, e as outras origens desse sintoma estão reunidas na página sobre dor no arco do pé no adulto.
Sintomas da síndrome de Müller-Weiss
- Dor crônica no meio do pé, na parte interna e no dorso, que piora ao caminhar e ao ficar muito tempo em pé.
- Início sem trauma, com evolução lenta ao longo de meses ou anos.
- Saliência óssea no dorso e na parte interna do pé, onde o navicular se desloca.
- Achatamento progressivo do arco, com o calcanhar inclinado para dentro.
- Rigidez e dor ao movimentar o meio do pé, com dificuldade para andar em terreno irregular.
- Inchaço discreto depois de esforço e, em fases avançadas, dor também em repouso.
- Dor nos dois pés em boa parte dos casos, embora um lado costume incomodar mais.
Causas e fatores de risco
A causa exata não está definida, e a hipótese mais aceita combina dois fatores. O primeiro é um atraso na ossificação do navicular na infância, que deixa o osso mais vulnerável. O segundo é a sobrecarga mecânica crônica sobre a parte lateral do osso, favorecida por um primeiro metatarso curto, um segundo metatarso longo, calcanhar em varo ou desalinhamentos que empurram a carga para o lado externo do navicular. Trauma antigo, uso prolongado de corticoide, alcoolismo e doenças que alteram a circulação do osso também aparecem em parte dos pacientes. Historicamente, a doença foi associada a desnutrição na infância e a trabalho pesado em pé, o que ajuda a explicar a maior frequência em mulheres de regiões rurais.
A condição não deve ser confundida com a doença de Köhler, a osteonecrose do navicular que acontece em crianças pequenas e se resolve com o crescimento. A versão infantil está explicada na página sobre a doença de Köhler no navicular da criança.
Estágios da síndrome de Müller-Weiss
A classificação mais utilizada, descrita por Maceira, acompanha a deformidade na radiografia de perfil com carga, observando como o tálus vai se inclinando conforme o navicular se comprime:
| Estágio | Radiografia | O que costuma significar |
|---|---|---|
| 1 | Quase normal; alterações sutis, visíveis melhor na ressonância | Dor sem deformidade; fase em que o diagnóstico mais escapa |
| 2 | Tálus começa a se inclinar para cima; compressão lateral do navicular | Arco ainda preservado, dor ao esforço |
| 3 | Arco achatado, eixo do tálus alinhado com o do primeiro metatarso | Pé plano com calcanhar em varo, dor frequente |
| 4 | Tálus inclinado para baixo, navicular fragmentado | Deformidade evidente, rigidez, artrose |
| 5 | Colapso quase total do navicular, tálus em contato com os cuneiformes | Dor constante, pé rígido, grande limitação |
O estágio radiográfico não corresponde sempre à intensidade da dor. Há pacientes com deformidade avançada e sintomas toleráveis, e o contrário também acontece.
Como o diagnóstico é feito
O diagnóstico começa pela suspeita clínica: adulto, em geral mulher de meia-idade, com dor crônica no meio do pé, saliência óssea dorsal e arco baixo com calcanhar virado para dentro. As radiografias do pé com carga, de frente, perfil e oblíqua, mostram o navicular em forma de vírgula, comprimido do lado de fora e deslocado para dentro, além da inclinação do tálus que define o estágio. Nas fases iniciais, quando a radiografia é quase normal, a ressonância magnética revela o edema e a área de necrose no osso. A tomografia detalha a fragmentação e a artrose das articulações vizinhas e é usada no planejamento cirúrgico. A síndrome costuma ser confundida com artrose comum do meio do pé, fratura por estresse do navicular, disfunção do tibial posterior e artrite inflamatória, e a radiografia com carga bem feita é o que separa essas possibilidades.
Tratamento da síndrome de Müller-Weiss sem cirurgia
Não existe medicamento que recupere o osso necrosado. O tratamento conservador busca reduzir a carga sobre o navicular e controlar a dor, e é suficiente para uma parcela importante dos pacientes, principalmente nos estágios iniciais:
- Palmilhas personalizadas com apoio do arco e uma cunha na borda externa do calcanhar, que corrige parte do varo e tira a pressão da região lateral do navicular. O desenho é diferente da palmilha de pé plano comum, por isso precisa ser feito a partir da avaliação, como descrito na página sobre palmilhas sob medida para o meio do pé.
- Calçado com solado rígido e curvado na ponta, que reduz o movimento do meio do pé a cada passo.
- Períodos de imobilização com bota, e eventualmente descarga parcial com muletas, nas crises de dor intensa.
- Analgésicos e anti-inflamatórios por curto período, com orientação médica.
- Controle do peso e adaptação de atividades que exigem ficar muito tempo em pé.
- Fisioterapia para manter a mobilidade do tornozelo e a força da perna sem sobrecarregar o navicular.
Infiltrações de corticoide no meio do pé podem aliviar a dor por algumas semanas, mas não alteram a evolução do osso e, repetidas, podem enfraquecer ainda mais as estruturas. Elas têm papel limitado nesta condição.
Quando a cirurgia é indicada
A cirurgia é considerada quando a dor persiste apesar do tratamento conservador bem conduzido e limita a vida diária. O objetivo é fundir as articulações desgastadas ao redor do navicular, restaurar o comprimento da coluna interna do pé com enxerto ósseo e corrigir o alinhamento do calcanhar. Conforme o estágio, as técnicas incluem a artrodese talonavicular isolada, a artrodese talonaviculocuneiforme, que une tálus, navicular e cuneiformes, e, nos casos com artrose do retropé, artrodeses mais amplas, às vezes associadas a osteotomia do calcâneo para corrigir o varo. A fixação é feita com parafusos e placas, e a consolidação do enxerto leva de dez a doze semanas, período em que o pé fica sem carga ou com carga parcial. O retorno às atividades plenas acontece entre quatro e seis meses. As possíveis necessidades de retirada posterior do material estão discutidas na página sobre placas e parafusos no pé e no tornozelo.
Por ser rara e de evolução lenta, a síndrome de Müller-Weiss é com frequência diagnosticada depois de anos de consultas. Pacientes de outras cidades que já têm radiografias e ressonância podem iniciar a avaliação por teleconsulta especializada em pé e tornozelo, com a leitura das imagens e a definição dos próximos passos.
Perguntas frequentes sobre a síndrome de Müller-Weiss
O que é a síndrome de Müller-Weiss?
É a osteonecrose espontânea do navicular no adulto: o osso que forma o topo do arco interno do pé perde parte do suprimento de sangue, fica frágil, se comprime e se fragmenta ao longo dos anos. O resultado é dor crônica no meio do pé, deformidade e artrose nas articulações vizinhas.
Müller-Weiss e Mueller-Weiss são a mesma doença?
Sim. Mueller-Weiss é apenas a grafia sem o trema, usada em textos em inglês e em buscas. A condição também aparece como doença de Brailsford, em homenagem ao radiologista que a descreveu.
A síndrome de Müller-Weiss tem cura?
O osso já deformado não volta ao formato original. O que o tratamento consegue é controlar a dor e preservar a função: com palmilhas e calçado nas fases iniciais e, nos casos avançados, com a fusão das articulações desgastadas, que costuma reduzir bastante a dor.
Qual é a diferença entre Müller-Weiss e doença de Köhler?
As duas acometem o navicular, mas em idades diferentes. A doença de Köhler atinge crianças pequenas, tem evolução benigna e o osso costuma se recuperar sozinho. A síndrome de Müller-Weiss atinge adultos, não regride de forma espontânea e evolui para deformidade e artrose.
Quando a cirurgia é indicada na síndrome de Müller-Weiss?
Quando a dor persiste apesar de palmilhas, calçado adequado e períodos de descarga, limitando caminhar e trabalhar. A técnica, em geral uma artrodese das articulações ao redor do navicular com enxerto ósseo, é escolhida conforme o estágio, o alinhamento do pé e a extensão da artrose.