Tenossinovite do tibial posterior é a inflamação da bainha que envolve o tendão tibial posterior, o principal responsável por sustentar o arco do pé por dentro. Ele desce pela parte de trás do osso saliente do tornozelo interno, o maléolo medial, e se prende no navicular, no topo do arco. Quando a bainha inflama, dói do lado de dentro do tornozelo e abaixo dele, incha ao longo do trajeto e, se nada é feito, o tendão se degenera, alonga e deixa o arco cair. É o começo do pé plano adquirido do adulto, e por isso é uma dor que não deve ser tratada como simples "inflamação".
O que o tibial posterior faz e o que acontece quando inflama
A cada passo, o tibial posterior trava o meio do pé e vira o calcanhar para dentro, transformando o pé em uma alavanca rígida para o impulso. Sem ele, o arco cede, o calcanhar vira para fora e a frente do pé abre, como se "escapasse" para o lado. O tendão trabalha em desvantagem mecânica, com pouco espaço e circulação ruim na curva atrás do maléolo, e é ali que a bainha inflama e as fibras se desgastam.
Muita gente chega ao consultório já com o pé mais chato do que era e acha que "nasceu assim". O pé plano flexível da infância e o pé plano adquirido do adulto são condições diferentes, com idades, causas e tratamentos distintos; a página sobre pé plano explica os dois e ajuda a identificar em qual grupo você está.
O "ossinho em cima do pé": navicular acessório
Uma das buscas mais comuns que trazem pessoas a este artigo é "ossinho em cima do pé", do lado de dentro, pouco à frente do tornozelo. Na maioria dos casos esse ossinho é o navicular acessório, um osso extra que uma parcela das pessoas tem desde o nascimento, grudado ao navicular exatamente onde o tibial posterior se insere. Ele é uma variação normal, mas cria dois problemas: o sapato esfrega sobre a saliência e inflama a pele e a bursa, e o tendão, que se prende em um osso "solto", perde eficiência e inflama com mais facilidade. Adolescentes e adultos jovens com dor nesse ponto, piorando com tênis apertado e esporte, quase sempre têm essa combinação. Nem toda saliência nessa região é navicular acessório: cistos, osteófitos e inflamação de outros tendões também aparecem ali, como descrevo na página sobre caroço no pé.
Sintomas da tenossinovite do tibial posterior
- Dor e inchaço do lado de dentro do tornozelo, atrás e abaixo do osso saliente, seguindo até o arco.
- Dor que piora ao caminhar distâncias, ficar em pé por muito tempo e subir escadas.
- Dificuldade ou dor para ficar na ponta de um pé só.
- Arco que vai cedendo ao longo dos meses; sapatos que passam a desgastar por dentro.
- Nos estágios avançados, a dor muda para o lado de fora do tornozelo, porque o calcanhar virado para fora comprime os ossos daquele lado.
O inchaço interno persistente é o sinal que mais distingue essa condição de uma dor muscular comum. Se o seu tornozelo inchado é de um lado só e doi ao apertar atrás do maléolo interno, o tibial posterior é o primeiro suspeito.
Os estágios do pé plano adquirido do adulto
| Estágio | O que se vê | Tratamento habitual |
|---|---|---|
| 1 | Tenossinovite, tendão íntegro, arco preservado, consegue ficar na ponta do pé com dor | Imobilização curta, palmilha, fisioterapia |
| 2 | Tendão alongado ou com fissuras, arco caído mas ainda flexível, não fica na ponta de um pé só | Órtese ou palmilha moldada, fisioterapia; cirurgia de reconstrução se falhar |
| 3 | Deformidade rígida, artrose das articulações do retropé | Órtese rígida; artrodese (fusão) quando a dor limita |
| 4 | Tornozelo também inclinado, com desgaste da articulação | Tratamento combinado de pé e tornozelo, individualizado |
Causas e fatores de risco
É mais comum em mulheres acima dos 40 anos, em pessoas com sobrepeso, hipertensão, diabetes e em quem já tinha pé plano flexível e passou a sobrecarregá-lo. Navicular acessório, uso prolongado de corticoide, doenças inflamatórias como artrite reumatoide e traumas na região interna do tornozelo também contribuem. Em jovens, o gatilho costuma ser esporte com aumento rápido de volume e calçado sem suporte.
Como o diagnóstico é feito
O exame clínico é decisivo: olho os pés por trás em pé (o sinal de "muitos dedos", quando se veem mais dedos do lado de fora do pé afetado), peço para ficar na ponta de um pé só e observo se o calcanhar vira para dentro, aperto o trajeto do tendão e testo a força de inversão. A radiografia com carga mede o quanto o arco caiu e mostra o navicular acessório e sinais de artrose. A ultrassonografia avalia o líquido na bainha e as fissuras do tendão, e a ressonância detalha a degeneração e as estruturas ligamentares, informação necessária quando se pensa em cirurgia. Para quem procura por "tenossinovite" de modo geral, vale saber que a mesma inflamação de bainha ocorre em outro tendão do mesmo nome na frente do tornozelo, com sintomas bem diferentes; a página sobre tenossinovite do tibial anterior trata desse caso.
Tratamento
Estágio 1 e 2 flexível: tratamento sem cirurgia
O objetivo é tirar a carga do tendão enquanto ele se recupera. Nos casos agudos, bota imobilizadora por três a seis semanas. Em seguida, palmilha personalizada com suporte do arco e cunha interna no calcanhar, calçado com contraforte firme e fisioterapia focada em fortalecimento progressivo do tibial posterior, alongamento da panturrilha e treino de equilíbrio. Anti-inflamatório por período curto, quando permitido, e controle do peso completam o plano. Infiltração de corticoide dentro da bainha é usada com muita cautela, porque o tendão já enfraquecido pode romper.
Quando operar
Indicada quando a dor persiste após três a seis meses de tratamento bem feito ou quando a deformidade progride. No estágio 1 com navicular acessório doloroso, retira-se o ossinho e reinsere-se o tendão. No estágio 2, a reconstrução combina transferência de um tendão vizinho para substituir o tibial posterior com osteotomias (cortes de realinhamento) do calcâneo, fixadas com parafusos, para corrigir o eixo e proteger o novo tendão. No estágio 3, a artrodese das articulações desgastadas devolve um pé alinhado e sem dor, à custa do movimento que já estava perdido. A página sobre placas e parafusos no pé e tornozelo descreve o que esperar desse tipo de fixação.
O tempo joga contra. A tenossinovite do tibial posterior é uma das poucas dores do pé em que esperar "passar sozinho" custa caro: cada estágio que avança troca um tratamento simples por um mais complexo. Dor interna com inchaço há mais de três semanas merece avaliação, presencial ou por teleconsulta com envio de fotos dos pés.
Perguntas frequentes sobre tenossinovite do tibial posterior
O que é o ossinho em cima do pé, do lado de dentro?
Na maioria das vezes é o navicular acessório, um osso extra que uma parcela das pessoas tem junto ao navicular, no ponto em que o tendão tibial posterior se prende. Ele é normal, mas pode doer com atrito do calçado e sobrecarregar o tendão.
Tenossinovite do tibial posterior tem tratamento sem cirurgia?
Nos estágios iniciais, com tendão inflamado mas íntegro, o tratamento com imobilização, palmilha e fisioterapia costuma controlar a dor e impedir a progressão. Quando o pé já deformou de forma rígida, o objetivo passa a ser corrigir o alinhamento, o que pode exigir cirurgia.
Por que o pé ficou chato depois dos 40 anos?
Porque o tendão tibial posterior, que sustenta o arco por dentro, se degenerou e alongou. Sem ele, o arco cede, o calcanhar vira para fora e a frente do pé abre. É o pé plano adquirido do adulto, e a tenossinovite é o seu primeiro estágio.
Qual é o teste de ficar na ponta de um pé só?
Pede-se para a pessoa ficar na ponta de um pé só, segurando em algo para equilibrar. Com o tibial posterior saudável, o calcanhar vira para dentro ao subir. Se não sobe, ou sobe com dor e o calcanhar não vira, o tendão está fraco ou rompido.
Qual a diferença entre tibial posterior e tibial anterior?
O tibial anterior passa pela frente do tornozelo e levanta o pé; quando inflama, dói no dorso do pé. O tibial posterior passa atrás do osso interno do tornozelo e sustenta o arco; quando inflama, dói do lado de dentro, abaixo do tornozelo, e o pé tende a achatar.