Coalizão tarsal é uma ligação anormal entre dois ossos da parte de trás e do meio do pé (os ossos do tarso) que deveriam ser separados e móveis. Essa ponte pode ser de osso, de cartilagem ou de tecido fibroso, e está presente desde a formação do pé, antes do nascimento. Enquanto é mole, passa despercebida. Quando endurece, entre 8 e 16 anos, a articulação perde o movimento, o pé fica plano e rígido, começa a doer e o tornozelo passa a torcer com facilidade. As coalizões tarsais são uma das causas mais importantes de pé plano doloroso em adolescentes.
O que é a coalizão tarsal e quais ossos ela une
O retropé funciona como uma junta universal: o calcâneo, o tálus e o navicular deslizam uns sobre os outros para que o pé se adapte ao chão. Na coalizão, dois desses ossos não se separaram por completo durante o desenvolvimento. Os dois tipos mais frequentes respondem por quase todos os casos:
- Coalizão calcaneonavicular: ponte entre o calcâneo e o navicular, na borda externa do meio do pé. Tende a ossificar entre 8 e 12 anos e é a que mais se vê no raio-x.
- Coalizão talocalcânea: ponte entre o tálus e o calcâneo, na articulação subtalar, geralmente na sua faceta média, do lado de dentro. Ossifica entre 12 e 16 anos e é mais difícil de enxergar sem tomografia.
A coalizão ocorre nos dois pés em cerca de metade das pessoas, mesmo que só um doa. O pé plano que ela produz é diferente do pé plano flexível comum, que forma arco na ponta dos pés e raramente dói; a página sobre pé plano explica essa distinção, que é o primeiro passo do diagnóstico.
Sintomas: como a coalizão tarsal se manifesta
- Dor no meio ou na parte de trás do pé, do lado de dentro ou de fora, que piora com esporte e terreno irregular.
- Pé plano que não forma arco quando a pessoa fica na ponta dos pés, e calcanhar que não vira para dentro nessa posição.
- Rigidez: a articulação subtalar quase não gira ao examinar.
- Torções de tornozelo repetidas, porque o pé não se adapta ao chão e o tornozelo compensa.
- Espasmo dos tendões fibulares, que mantêm o pé virado para fora e doem na lateral do tornozelo (o chamado pé plano espástico).
- Cansaço rápido nas pernas, dificuldade em caminhadas longas e em pisos de areia ou grama.
O adolescente que "torce o tornozelo toda semana" merece exame do retropé antes de ser rotulado como desastrado. A entorse de tornozelo de repetição é, com frequência, o sintoma que leva ao diagnóstico da coalizão.
Causas e fatores de risco
A causa é uma falha genética na segmentação dos ossos do tarso durante a vida embrionária, de herança familiar em parte dos casos. Não é provocada por calçado, por esporte nem por peso, embora esses fatores influenciem quando e quanto vai doer. Coalizões podem acompanhar algumas síndromes raras, mas na imensa maioria aparecem em pessoas saudáveis.
Diagnóstico: da radiografia à tomografia
O exame físico mostra o pé plano rígido, a perda de rotação da subtalar e, às vezes, o espasmo dos fibulares. A radiografia em três incidências pode mostrar a ponte calcaneonavicular na oblíqua e sinais indiretos da talocalcânea no perfil: o "sinal do C" e o bico no topo do tálus. Mas o raio-x deixa escapar muitas coalizões, principalmente as de cartilagem e fibrosas.
A tomografia computadorizada é o exame que confirma: mostra qual articulação está unida, o tamanho da ponte em relação à superfície articular, se é óssea ou não e se já existe artrose nas articulações vizinhas. Essas informações definem o tratamento. A ressonância magnética complementa quando a ponte é fibrosa e para avaliar edema ósseo e as partes moles. Dor lateral persistente no tornozelo de um adolescente, sem lesão clara, é uma das situações em que peço tomografia; outras causas de dor no tornozelo devem ser lembradas no mesmo exame.
Tratamento da coalizão tarsal
Sem cirurgia
Coalizão que não dói não se trata. Quando dói, a primeira etapa é acalmar a inflamação: bota imobilizadora ou gesso por quatro a seis semanas nos episódios agudos, redução de impacto, anti-inflamatório por curto período quando indicado. Depois, uma palmilha personalizada com apoio do arco e contenção do calcanhar diminui a demanda sobre a articulação travada, e a fisioterapia fortalece os músculos que estabilizam o tornozelo. Quando o espasmo dos fibulares domina o quadro, tratá-lo como uma tenossinovite dos fibulares isolada não resolve: é preciso tratar a coalizão por trás dele. Parte dos pacientes fica confortável só com essas medidas.
Cirurgia
Indicada quando a dor persiste após alguns meses de tratamento bem feito, quando as torções se repetem apesar da fisioterapia ou quando a coalizão limita a vida do adolescente. Há duas estratégias:
- Ressecção da coalizão: retira-se a ponte e coloca-se gordura, músculo ou outro tecido no espaço para que ela não se refaça. É a escolha habitual em pacientes jovens, com ponte pequena ou média e sem artrose. Devolve movimento e costuma aliviar bem a dor.
- Artrodese: fusão permanente da articulação envolvida. Reservada para coalizões muito extensas, para quando já existe artrose ou quando a ressecção falhou. Troca o movimento, que já estava perdido, por um pé sem dor e alinhado.
Em pés com deformidade plana acentuada, a ressecção pode ser combinada com procedimentos de realinhamento do calcanhar.
| Tipo | Idade em que costuma doer | Exame que melhor mostra | Tratamento cirúrgico habitual |
|---|---|---|---|
| Calcaneonavicular | 8 a 12 anos | Raio-x oblíquo e tomografia | Ressecção com interposição |
| Talocalcânea | 12 a 16 anos | Tomografia | Ressecção se ponte menor que metade da faceta e sem artrose; artrodese nos demais |
Recuperação e vida depois do tratamento
Após a ressecção, usa-se bota por duas a quatro semanas, com início precoce do movimento para que a ponte não se refaça. Fisioterapia por dois a três meses recupera a mobilidade e o equilíbrio, e o retorno ao esporte ocorre, em geral, entre três e quatro meses. Após a artrodese, a imobilização é mais longa, de seis a oito semanas sem carga, e a adaptação completa leva perto de seis meses. Em ambos os casos, palmilha e calçado com bom contraforte seguem úteis. Adultos com coalizão descoberta tarde, já com artrose, são conduzidos caso a caso. Se o pé plano rígido ou as torções repetidas descritas aqui lembram o seu caso ou o do seu filho, a consulta online é um bom primeiro passo para decidir quais exames pedir.
Para pais e treinadores. Pé plano em criança pequena é normal e flexível. Pé plano que surge ou piora na adolescência, que dói, que é rígido na ponta dos pés ou que vem acompanhado de torções repetidas não é a mesma coisa, e merece investigação antes de mais uma temporada de esporte.
Perguntas frequentes sobre coalizão tarsal
Coalizão tarsal é de nascença?
Sim. A falha de separação entre os ossos acontece na formação do pé, antes do nascimento. Os sintomas só aparecem anos depois, quando a ponte de cartilagem endurece e tira o movimento.
Por que a coalizão tarsal começa a doer na adolescência?
Porque a ponte que une os ossos é de cartilagem na infância e ainda permite algum movimento. Entre 8 e 16 anos ela ossifica, a articulação perde a mobilidade e a carga do crescimento e do esporte passa a sobrecarregar as articulações vizinhas.
Coalizão tarsal sempre precisa de cirurgia?
Não. Muitas pessoas têm coalizão sem dor e nunca precisam tratar. Quando dói, começa-se com imobilização, palmilha e fisioterapia. A cirurgia é indicada quando a dor persiste apesar desse tratamento ou quando as torções se repetem.
Qual exame confirma a coalizão tarsal?
A radiografia levanta a suspeita, mas a tomografia computadorizada é o exame que confirma, mostra o tipo, o tamanho da ponte e se já há artrose. A ressonância ajuda nas coalizões fibrosas e cartilaginosas, que a tomografia pode não mostrar bem.
Coalizão tarsal pode causar torções de tornozelo repetidas?
Sim. Com a articulação subtalar travada, o pé não se adapta ao terreno irregular e o tornozelo compensa, torcendo com mais facilidade. Adolescente que torce o tornozelo várias vezes e tem o pé plano rígido deve ser investigado.