Pé dormente é a perda, parcial ou total, da sensibilidade em uma área do pé: a pessoa toca a pele e sente menos do que deveria, como se houvesse uma camada de borracha entre o dedo e o pé. É diferente do formigamento, que é uma sensação a mais, de agulhadas ou "pé dormindo". A dormência é uma sensação a menos. Ela aparece quando um nervo deixa de levar a informação da pele até o cérebro, seja porque está comprimido em algum ponto do trajeto, seja porque está doente, como acontece no diabetes.

Dormência ou formigamento: qual é a diferença

Os dois sintomas costumam andar juntos e vêm do mesmo tipo de problema, mas indicam fases diferentes do sofrimento do nervo. No começo, o nervo irritado dispara sinais errados, e a pessoa sente formigamento, choques ou queimação. Quando a compressão ou a doença avançam, as fibras param de conduzir, e o que sobra é a dormência. Por isso, um pé que formigava há meses e agora está dormente não melhorou: o nervo está mais comprometido. Um exemplo dessa evolução é o neuroma de Morton, que começa com choques entre os dedos e termina em dormência.

O que pode causar o pé dormente

A região dormente é a pista mais útil. O pé é inervado por cinco nervos principais, cada um responsável por uma faixa de pele, e cada um pode ser apertado em pontos conhecidos do caminho entre a coluna e os dedos.

Onde está dormenteNervo provávelCausas mais comuns
Entre o terceiro e o quarto dedos, às vezes o segundo e o terceiroNervo digital plantarNeuroma de Morton, calçado apertado, salto alto
Sola do pé e calcanhar, às vezes com queimação à noiteNervo tibialSíndrome do túnel do tarso, pé plano, cisto ou varizes atrás do tornozelo interno
Dedão dormente, entre o dedão e o segundo dedoNervo fibular profundoCadarço ou tênis apertado no peito do pé, osteófito dorsal, pancada; se vier com fraqueza do dedão, compressão na coluna (raiz L5)
Peito do pé e lateral da pernaNervo fibular superficial ou comumPernas cruzadas por muito tempo, bota ou gesso apertado, entorse grave de tornozelo, cisto no joelho
Os dois pés inteiros, "em meia", subindo para as pernasVários nervos ao mesmo tempo (polineuropatia)Diabetes, álcool, falta de vitamina B12, hipotireoidismo, quimioterapia, doença renal

Compressão de nervo no próprio pé

O neuroma de Morton é o exemplo clássico: o nervo que passa entre os metatarsos engrossa por atrito repetido e deixa dois dedos dormentes, com sensação de meia enrolada ou de pedra no sapato. A síndrome do túnel do tarso é o equivalente, no pé, da síndrome do túnel do carpo na mão: o nervo tibial é apertado em um canal atrás do tornozelo interno e a sola fica dormente ou queimando. Nas fases iniciais dessas compressões o sintoma predominante é o formigamento no pé.

Diabetes e outras doenças do nervo

Quando os dois pés ficam dormentes de forma simétrica, começando pelos dedos e subindo, a causa raramente está no pé. É o padrão da neuropatia periférica, e o diabetes responde pela maior parte dos casos. O açúcar alto por anos danifica as fibras mais longas do corpo primeiro, que são as que chegam aos dedos dos pés. É uma dormência perigosa, porque a pessoa deixa de sentir bolhas, calos e feridas. O guia completo sobre o pé diabético mostra como examinar os pés em casa.

Dormência nas pernas e hérnia de disco

Quando a dormência começa na nádega ou na coxa e desce pela perna até o pé, acompanhando uma faixa, a origem costuma estar na coluna lombar: hérnia de disco ou estreitamento do canal que comprime a raiz do nervo. Dormência na perna esquerda ou na perna direita, de um lado só, com dor que piora ao sentar, tossir ou abaixar, aponta nessa direção. A avaliação do pé é feita em conjunto com a investigação da coluna.

Quando o pé dormente é urgência

Procure atendimento imediato se a dormência surgiu de repente e veio junto com fraqueza para levantar o pé ou os dedos, perda de controle da urina ou das fezes, dormência na região entre as pernas, pé frio e pálido ou sinais de derrame (fala enrolada, boca torta, fraqueza de um lado do corpo).

Fora dessas situações, a dormência merece consulta sem urgência, mas sem adiar por meses, quando dura mais de duas semanas, vem nos dois pés, piora, atrapalha o equilíbrio ou acontece em pessoa com diabetes.

Como o diagnóstico é feito

A consulta começa pela história: onde está dormente, há quanto tempo, se é de um lado ou dos dois, o que piora e o que melhora, que calçado a pessoa usa, se há diabetes, problemas de tireoide ou dor na coluna. O exame físico mapeia a sensibilidade, testa a força de cada músculo do pé e da perna, percute o trajeto dos nervos em busca de um ponto que dispare choque (sinal de Tinel) e observa a pisada e o alinhamento do pé. A ortopedista avalia se há pé plano, pé cavo ou outra deformidade que estique ou comprima o nervo.

Conforme a suspeita, pedem-se exames: eletroneuromiografia para medir a condução dos nervos e localizar a compressão, ultrassom ou ressonância do pé para ver neuroma, cisto ou inflamação no túnel do tarso, ressonância da coluna quando a origem parece lombar, e exames de sangue (glicemia, hemoglobina glicada, vitamina B12, função da tireoide e dos rins) nas dormências simétricas.

Tratamento: existe remédio para dormência nos pés?

Não existe um remédio que devolva a sensibilidade por si só. O tratamento é dirigido à causa, e o nervo se recupera na medida em que a compressão ou a agressão é removida. Isso pode significar:

  • Trocar o calçado por um de bico largo, sem cadarço apertado e com salto baixo, nas compressões por calçado.
  • Palmilha com apoio atrás dos metatarsos no neuroma de Morton, e com suporte do arco no túnel do tarso ligado ao pé plano.
  • Controle rigoroso da glicemia e reposição de vitaminas quando a causa é metabólica.
  • Cirurgia de liberação do nervo ou retirada do neuroma quando o tratamento conservador falha e a compressão está bem localizada.

Quanto mais tempo o nervo passa comprimido, menor a chance de recuperação completa. Se você mora fora de Florianópolis, a investigação pode começar por teleconsulta ortopédica, com orientação dos exames a fazer na sua cidade.

Perguntas frequentes sobre pé dormente

Dedão do pé dormente: o que pode ser?

Dormência só no dedão, ou entre o dedão e o segundo dedo, costuma vir da compressão do nervo fibular profundo no peito do pé, por cadarço apertado, tênis justo ou uma saliência óssea. Se o dedão também ficou fraco para levantar, a origem pode estar na coluna lombar, e vale investigar.

Dormência nos dedos do pé é sempre diabetes?

Não. Dedos dormentes de um lado só, em uma área pequena, em geral são compressão local de um nervo, por calçado ou neuroma. O diabetes causa dormência nos dois pés, simétrica, começando pelas pontas dos dedos e subindo. Mesmo assim, quem tem fatores de risco deve medir a glicemia.

Pé dormente ao acordar ou depois de sentar é normal?

Dormência que passa em poucos minutos ao mexer o pé é a compressão temporária de um nervo pela posição, e não indica doença. O sinal de alerta é a dormência que persiste depois de se mover, que volta todos os dias no mesmo lugar ou que vem com fraqueza.

Quem trata pé dormente: ortopedista ou neurologista?

Depende da origem. Quando a causa está no pé ou no tornozelo, como neuroma, túnel do tarso ou compressão por calçado e deformidade, a ortopedista de pé e tornozelo conduz o tratamento. Quando há polineuropatia ou compressão na coluna, ela trabalha em conjunto com neurologista, endocrinologista ou cirurgião de coluna.