Dor no pé é qualquer desconforto sentido entre o calcanhar e a ponta dos dedos, na planta, no dorso ou nas laterais, e é uma das queixas mais frequentes em ortopedia porque o pé suporta o peso do corpo a cada passo. São 26 ossos, mais de 30 articulações e dezenas de tendões, ligamentos e nervos em um espaço pequeno, e cada um deles pode doer por motivo diferente. Dividir o pé em regiões, retropé, mediopé, antepé, dorso e dedos, é a forma mais prática de entender os tipos de dores no pé e o que cada uma pode ser.

Dor no calcanhar e no retropé

A parte de trás do pé é onde a dor é mais comum. Dor embaixo do calcanhar, pior nos primeiros passos da manhã e depois de ficar sentado, é o quadro típico da fascite plantar, a inflamação da faixa que sustenta o arco. Muitas vezes a radiografia mostra o esporão, que é consequência, não a causa da dor. Dor atrás do calcanhar, na inserção do tendão de Aquiles, piora ao subir escadas e com o contraforte do sapato. Dor difusa no calcanhar, que aumenta com a atividade e dói ao apertar o osso dos dois lados, levanta a hipótese de fratura por estresse do calcâneo. Em crianças e adolescentes esportistas, a dor no calcanhar costuma ser a doença de Sever, inflamação da cartilagem de crescimento. A página sobre dor no calcanhar detalha cada uma dessas causas.

Dor no arco e no mediopé

O meio do pé é a região do arco. Dor ao longo do arco, pior ao fim do dia e ao ficar em pé por muito tempo, está ligada a pé plano, sobrecarga da fáscia e fadiga do tendão tibial posterior, que sustenta o arco por dentro. Queimação e formigamento no arco e na planta, pior à noite, sugerem síndrome do túnel do tarso, a compressão do nervo tibial atrás do maléolo interno. Dor no mediopé depois de uma torção com o pé preso, ao pisar em falso ou em acidente de carro, com inchaço no dorso e dificuldade para apoiar, deve ser investigada como lesão de Lisfranc, uma lesão das articulações do meio do pé que passa despercebida em radiografias comuns e deixa sequelas quando não é tratada.

Dor na frente do pé e na planta sob os dedos

O antepé é a região das cabeças dos metatarsos, os ossos longos que terminam na base dos dedos. Dor na planta, como se houvesse uma pedra no sapato ou uma dobra na meia, pior com salto alto e ao fim do dia, é a metatarsalgia, a sobrecarga dessas cabeças ósseas. Quando a dor vem em choque ou queimação entre o terceiro e o quarto dedos, com dormência nos dedos e alívio ao tirar o sapato, a suspeita é de neuroma de Morton, um espessamento do nervo entre os metatarsos. Dor na base do dedão, com saliência na lateral e vermelhidão no sapato, é o joanete; dor na mesma articulação, mas com rigidez para dobrar o dedão para cima, é o hálux rígido, a artrose dessa junta. Dor na base do quinto metatarso, na lateral externa do pé, depois de torção ou em corredores, pode ser fratura.

Dor no dorso do pé

A dor em cima do pé é uma das buscas mais frequentes e uma das menos explicadas. As causas principais:

  • Tendinite dos extensores e do tibial anterior: dor em faixa no dorso, pior ao levantar o pé e os dedos, comum depois de caminhadas longas, subidas e cadarço apertado. A tenossinovite do tibial anterior dá inchaço alongado e às vezes crepitação ao mexer o pé.
  • Artrose do mediopé: dor profunda no dorso ao caminhar, com saliências ósseas que atrapalham o sapato, em pessoas acima dos 50 anos ou com história de fratura.
  • Fratura por estresse dos metatarsos: dor localizada em um ponto do dorso, pior com a atividade, em quem aumentou treino, mudou calçado ou tem osteoporose.
  • Gânglio e compressão nervosa: um cisto no dorso pode comprimir o nervo fibular superficial e causar dor com formigamento no peito do pé.
  • Gota: crise de dor intensa, vermelhidão e inchaço, com frequência na base do dedão, mas também no dorso e no tornozelo.

Quando a dor é em todo o pé ou nos dois pés

Pés doloridos de forma difusa, cansados, que pioram ao longo do dia, costumam refletir sobrecarga: ganho de peso, trabalho em pé em piso duro, calçado sem amortecimento ou alteração de pisada. Dor nos dois pés com inchaço e rigidez matinal longa sugere artrite inflamatória. Dor em queimação, formigamento ou sensação de meia apertada nos dois pés, pior à noite, aponta para neuropatia periférica, cuja causa mais comum é a diabete. Dor que desce da coluna pela perna até o pé, em faixa, é dor irradiada de origem lombar.

RegiãoCausas mais comuns
CalcanharFascite plantar, esporão, tendinopatia do Aquiles, fratura por estresse, Sever
Arco e mediopéPé plano, tibial posterior, túnel do tarso, lesão de Lisfranc, artrose
Antepé e planta sob os dedosMetatarsalgia, neuroma de Morton, joanete, hálux rígido, fratura do 5º metatarso
DorsoTendinite dos extensores, artrose do mediopé, fratura por estresse, gânglio, gota
DedosDedos em garra, calos, unha encravada, fratura, circulação
Difusa ou nos dois pésSobrecarga, artrite inflamatória, neuropatia, dor irradiada da coluna

Como o diagnóstico é feito

A consulta começa por localizar a dor com precisão e entender o seu comportamento: quando começou, se piora ao acordar ou ao fim do dia, se há inchaço, formigamento ou dor em outras articulações, que calçado é usado e que atividade física é feita. O exame físico palpa cada estrutura, testa a mobilidade das articulações, a força dos tendões e a sensibilidade, e observa o pé em pé e caminhando, porque muitas causas só aparecem com carga.

A radiografia com carga é o exame inicial para ossos e articulações. O ultrassom avalia tendões, fáscia, neuroma e bursas. A ressonância magnética é pedida quando há suspeita de fratura por estresse, lesão ligamentar, tumor ou quando a dor persiste sem explicação. Exames de sangue entram na suspeita de gota, artrite inflamatória, diabete ou deficiências nutricionais.

Tratamento conforme a causa

Não existe um tratamento para dor no pé; existe um tratamento para cada causa. Ainda assim, alguns princípios se repetem:

  • Calçado: bico largo, solado firme com amortecimento, contraforte rígido e leve salto resolvem ou aliviam boa parte das queixas.
  • Palmilhas: redistribuem a carga em metatarsalgia, pé plano, pé cavo e fascite; podem ser sob medida quando a pisada exige.
  • Alongamento e fortalecimento: panturrilha, fáscia plantar e musculatura intrínseca do pé.
  • Controle de carga: reduzir o impacto temporariamente, revezar atividades, perder peso quando indicado.
  • Medicação e infiltração: analgésicos e anti-inflamatórios por curto prazo; infiltração guiada por ultrassom em neuroma, artrose e fascite resistente.
  • Cirurgia: reservada a deformidades dolorosas, fraturas desviadas, neuromas e lesões que não respondem ao tratamento conservador.

Diabete muda as regras. Em pessoas com diabete, dor, calo ou ferida no pé, por menores que sejam, devem ser avaliados logo, porque a perda de sensibilidade esconde lesões que evoluem rápido.

Quem está fora de Florianópolis pode iniciar a investigação por teleconsulta com especialista em pé, enviando fotos, vídeo da pisada e exames já realizados.

Perguntas frequentes sobre dor no pé

Dor em cima do pé, o que pode ser?

A dor no dorso do pé costuma vir de tendinite dos extensores ou do tibial anterior, de artrose das pequenas articulações do mediopé, de fratura por estresse de um metatarso ou de compressão por cadarço apertado. Dor no dorso depois de uma torção com o pé preso merece investigar lesão de Lisfranc, que passa despercebida com frequência.

Por que sinto muitas dores nos pés ao mesmo tempo?

Dor nos dois pés, em vários pontos, aponta para causas gerais: sobrecarga por peso ou trabalho em pé, calçado inadequado, artrites inflamatórias, neuropatia por diabete ou deficiência de vitaminas, e alterações de pisada como pé plano ou cavo. A avaliação procura o padrão para definir o tratamento certo.

Dor na articulação do pé é artrose ou artrite?

Artrose é desgaste da cartilagem e dói com o uso, melhorando com repouso, com rigidez curta pela manhã. Artrite é inflamação, dói também em repouso, com inchaço, calor e rigidez matinal longa; gota e artrite reumatoide são exemplos. A radiografia e exames de sangue ajudam a diferenciar.

Quando a dor no pé precisa de médico?

Procure avaliação se a dor não melhora em duas semanas com repouso relativo e calçado adequado, se impede de apoiar o pé, se há inchaço, vermelhidão ou calor, se vem com formigamento ou dormência, se surgiu depois de trauma ou se você tem diabete, mesmo que a dor seja leve.

Dor no pé pode ser problema de coluna?

Pode. A compressão de uma raiz nervosa na coluna lombar causa dor irradiada que desce pela perna até o pé, muitas vezes com formigamento ou fraqueza. A pista é a dor seguir um trajeto em faixa e piorar ao sentar ou tossir, sem ponto doloroso no próprio pé.